UNIVERSIDADE
FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
CENTRO
DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS
DEPARTAMENTO
DE GEOGRAFIA
RELATÓRIO DE IDENTIFICAÇÃO DO TERRITÓRIO TRADICIONAL
RIBEIRINHO DA FOZ DO RIO DOCE
Observatório
dos Conflitos no Campo (OCCA)
Simone Raquel Batista Ferreira
(Coordenação)
André Azoury Vargas
Janete de Oliveira
Maria Jéssika de Oliveira Delpuppo
Miguel Chaves Saldanha
Priscila Krause de Almeida
Sebastião Rafael Inácio da Cruz
Thales Wellington Felix
Vinícius Lima Lemes
Vitória, agosto de
2014
SUMÁRIO
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APRESENTAÇÃO...........................................................................................................
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1
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1. METODOLOGIA.........................................................................................................
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3
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1.1.
PESQUISA
AÇÃO...............................................................................................
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3
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1.2.
1.2. HISTORIA
ORAL......................................................................................................
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5
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1.3.
1.3. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO E
DOCUMENTAL...........................................
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8
|
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1.4.
1.4. MAPEAMENTO
PARTICIPATIVO............................................................................
|
9
|
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1.5.
1.6.
2. ÁREA DO ESTUDO....................................................................................................
|
13
|
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1.7.
2.1 UM BREVE RESUMO GEOHISTÓRICO DA ÁREA DE
ESTUDO...............................
|
13
|
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1.8.
2.2. CARACTERIZAÇÃO
GEOAMBIENTAL....................................................................
|
18
|
|
1.9.
2.2.1. Geologia
Geral e Geomorfologia.......................................................................
|
21
|
|
1.10.
2.2.2. Clima....................................................................................................................
|
24
|
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1.11.
2.2.3. Hidrologia...........................................................................................................
|
27
|
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1.12.
2.2.4. Vegetação...........................................................................................................
|
29
|
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1.13.
2.2.5. Fauna...................................................................................................................
|
30
|
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1.14.
1.15.
3. POVOS E
COMUNIDADES TRADICIONAIS...............................................................
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32
|
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3.1. O PROJETO
MODERNO COLONIAL E A CLASSIFICAÇÃO MUNDIAL DOS
POVOS...........................................................................................................................
|
32
|
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3.2. POVOS E
COMUNIDADES TRADICIONAIS DA FOZ DO RIO DOCE......................
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35
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3.3. MODO DE VIDA
E FORMAS DE TERRITORIALIDADE...........................................
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40
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4. HISTÓRICO DE CONFLITOS.....................................................................................
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50
|
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4.1. ALDEAMENTOS
E EXTERMÍNIO INDÍGENA: O DISCURSO DOS “VAZIOS DEMOGRÁFICOS”.........................................................................................................
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50
|
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4.2. A DISPONIBILIZAÇÃO DAS TERRAS PARA A PRODUÇÃO DO CARVÃO E DA
CELULOSE......................................................................................................................
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56
|
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4.3. A DRENAGEM DAS ÁREAS ALAGADIÇAS E A DISPONIBILIZAÇÃO DAS
TERRAS PARA AS FAZENDAS DE
GADO.....................................................................................
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58
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4.4. PETRÓLEO E
GÁS...................................................................................................
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62
|
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4.5. MINÉRIO E
INFRAESTRUTURA
PORTUÁRIA.......................................................
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69
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5. TERRITÓRIO RIBEIRINHO DA FOZ DO RIO DOCE: USO
TRADICIONAL E CONFLITO......................................................................................................................
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73
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5.1. BERESFORD
MOREIRA, CAVALINHO TRANSPORTES E O CONFLITO COM A OCUPAÇÃO E O USO
TRADICIONAL............................................................................
|
73
|
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5.2. UNIÃO
ENGENHARIA E O CONFLITO
ATUAL.......................................................
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80
|
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5.3. CONTEXTO DO
TERRITÓRIO.................................................................................
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82
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6. CONSIDERAÇÕES FINAIS E
RECOMENDAÇÕES...................................................
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88
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................................
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89
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ANEXOS.........................................................................................................................
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93
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APRESENTAÇÃO
Este relatório tem
como objetivo discutir e trazer ciência dos fatos ocorridos na luta pelo território
situado à margem direita da foz do rio Doce, próximo à Vila de Regência,
município de Linhares/ES, onde se desdobra o conflito entre o uso tradicional de
uma comunidade ribeirinha, pescadora e camponesa, e a empresa União Engenharia
S.A. O conflito territorial se estabelece entre formas de apropriação do espaço
orientadas por objetivos distintos: a comunidade tradicional, que constrói seu
modo de vida a partir de uma relação historicamente intrínseca com o rio Doce,
o mar e áreas adjacentes, onde se reproduz com atividades de pesca e
agricultura familiar; e a empresa, que atua na fabricação e montagem industrial
nas áreas de energia, indústria de base e infraestrutura, e deseja se
estabelecer na mesma área, provavelmente no intuito de facilitar sua prestação
de serviços a empresas como a Petrobras e outras.
Diante dos
desdobramentos desse conflito, a comunidade construiu sua resistência territorial
e solicitou apoio de instituições e entidades. O Observatório dos Conflitos do Campo (OCCA), projeto de Extensão do Departamento
de Geografia na Universidade Federal do Espírito Santo coordenado pela Prof.ª
Dr.ª Simone Raquel Batista Ferreira, então se reuniu com a comunidade para apresentar
uma proposta de estudo e identificação do território de uso tradicional. A
partir das observações e análises iniciais realizadas em campo, definimos alguns
procedimentos metodológicos para a produção da pesquisa referente ao território
tradicionalmente ocupado pela comunidade tradicional, no intuito de fortalecer
seus direitos de usufruto, já garantidos por instrumentos jurídicos como a Constituição Federal Brasileira (1988),
a Convenção 169 sobre Povos Indígenas e
Tribais da Organização Internacional do Trabalho – OIT (1989, ratificada
pelo Brasil em 2002) e a Política
Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais
(Decreto n.◦ 6.040/2007).
Nossa equipe de
trabalho constitui-se de 8 estudantes de graduação em Geografia – André Azoury
Vargas, Janete de Oliveira, Maria Jéssika Delpuppo, Miguel Chaves Saldanha,
Priscila Krause de Almeida, Sebastião Inácio da Cruz, Thales Wellington Felix e
Vinícius Lima Lemes – que trabalharam sob a coordenação da docente nas
atividades de pesquisa documental, bibliográfica, de campo e sistematização dos
dados. Além deles, contamos também com a contribuição do estudante Diego
Leandro Monteiro na elaboração do Mapa referente ao Território atualmente
ocupado (mapa 16). Observando a forte presença do rio Doce na produção da
existência dessa comunidade – e também de outras na região – denominamos nosso
trabalho de “Expedição Cabruca”, numa referência à Cabruca, que se constitui num manejo tradicional consorciado entre
a mata ciliar do rio e os plantios de frutíferas, com destaque ao cacau.
Para realizar
esse trabalho, contamos com a participação fundamental de algumas pessoas da
comunidade local, que nos trouxeram importantes informações, tais como: Ilda
Lourenço Peçanha; Gerônimo Maciel dos Santos; Nilton José dos Santos; Kátia
Alvarenga; Élcio José Souza de Oliveira (Zé de Sabino); dentre outros.
Com esse
trabalho, buscamos construir uma reflexão acerca do processo de construção
ambiental e social do território da foz do rio Doce, e os conflitos que aí se
desdobram há séculos envolvendo, de um lado, os povos originários indígenas e
seus descendentes presentes nas comunidades tradicionais pesqueiras, ribeirinhas
e camponesas, e de outro, os projetos desenvolvimentistas orientados pela
matriz de racionalidade moderno colonial capitalista.
1.
METODOLOGIA
Os
procedimentos metodológicos que orientaram o trabalho da Expedição Cabruca foram:
a) Estudo de trabalhos científicos a respeito dos
povos e comunidades tradicionais, e suas formas de territorialidade (cuja
discussão será feita no próximo capítulo);
b) Pesquisa Ação;
c) Historia Oral;
d) Levantamento bibliográfico e documental a
respeito dos processos históricos, sociais e econômicos ocorridos no vale do
rio Doce;
e) Mapeamento Participativo.
1.1. PESQUISA AÇÃO
A
opção pela Pesquisa Ação originou-se do caráter colaborativo que essa
metodologia propõe, pois é construída conjuntamente pelos pesquisadores e os
grupos focados nos estudos, onde não existe a divisão do trabalho intelectual, mas
um alcance transversal ou horizontal. Antes de ser uma forma de investigação, a
Pesquisa Ação é um instrumento prático de intervenção; portanto, uma ação antes de ser um método de pesquisa.
Para praticar a
Pesquisa Ação, é preciso conjugar duas tarefas simultâneas: uma tarefa de pesquisa, cujo objetivo é produzir
conhecimentos; e uma tarefa de ação,
cujo objetivo é interagir e modificar uma situação peculiar (DIONNE, 2007).
Hugues Dionne (2007)
vê a Pesquisa Ação principalmente como uma metodologia de intervenção na realidade circundante, oriunda da parceria estabelecida
entre pesquisadores e os sujeitos implicados em determinadas situações
problemáticas. Juntos, esses sujeitos vão procurar promover ações para
transformar a situação inicial em uma situação desejada. A intervenção não é
imposta por uma força externa às comunidades ou aos grupos considerados e,
menos ainda, por um “interventor”, mas tende a ser uma forma de atuação para
promover as mudanças consideradas necessárias, a serem conduzidas com base em
uma atitude de abertura e valores democráticos.
O pesquisador
desempenha um papel importante na aplicação dos procedimentos da Pesquisa Ação
– coleta, análise e interpretação de dados – mas não detém o monopólio do conhecimento.
Portanto, há o compartilhamento do conhecimento com os participantes do
processo – pesquisadores e pesquisados – e as decisões são tomadas
coletivamente, garantindo aos participantes-atores a manifestação de suas
expectativas e a liberdade de expressão (idem,
ibidem).
A Pesquisa Ação é dinâmica e a previsibilidade
do que acontece à interação não se dá por meio de um planejamento hierarquizado,
mas através de constantes levantamentos de idéias individuais e coletivas, a
fim de encontrar as melhores soluções para as situações problemáticas. Nesse
sentido, as decisões são flexíveis, devido ao caráter dinâmico e colaborativo
desta metodologia.
Nosso trabalho
se iniciou a partir de uma demanda apresentada pela própria comunidade (em
agosto de 2013), quando a empresa União Engenharia S.A. começou a se apropriar
do território tradicionalmente ocupado e situado junto à margem direita da foz
do rio Doce, próximo à Vila de Regência (município de Linhares-ES). Como a
posse e o uso tradicional, via de regra, não dispõem de documentação
comprobatória, oferecemos uma proposta de contribuição que poderia se fazer
pela elaboração de um estudo a respeito do território tradicionalmente ocupado
pela comunidade. Assim se iniciaram os trabalhos da Expedição Cabruca que, desde então, vem realizando diversas
incursões de campo nesse território em conflito:
1) Primeira visita ao lugar do conflito, no intuito
de conhecer a comunidade e o contexto local, bem como de apresentar nossa
proposta de trabalho (setembro/ 2013);
2) Oficina de Memória: entrevistas e grupos focais
com a comunidade com o uso metodológico da Historia
Oral, no intuito de colher relatos a respeito das histórias de vida; da
ancestralidade e relações de parentesco; das atividades produtivas tradicionais;
das mudanças socioambientais sofridas pela localidade (outubro/2013);
3) Oficina de Cartografia Social ou Mapeamento Participativo – Primeiro
momento: desenho do território tradicional feito pela comunidade, com as
referências de uso (presente e passado), tais como os lugares de moradia; de
cultivos, pesca, caça e coleta; dentre outros elementos que indicam a
identidade do grupo e o seu pertencimento ao território (outubro e novembro/
2013);
4) Oficina de Cartografia Social ou Mapeamento Participativo – Segundo
momento: georreferenciamento dos elementos indicados pela comunidade no desenho
do território com o uso de aparelhos GPS, etapa que possibilitou o registro
empírico (localização e imagens fotográficas) das formas de uso
tradicionalmente efetivadas (março/ 2014).
1.2. HISTORIA ORAL
O
uso da Historia Oral foi fundamental
para remontar as historias vividas naquele lugar, com destaque aos aspectos da
ancestralidade, às relações de parentesco, às atividades produtivas
tradicionais, e aos processos de alteração socioambiental sofridos. Nesse
enfoque, buscou-se abrir espaço à voz dos sujeitos pesquisados, que se
constituíram como principal fonte de informações a respeito do território.
A Historia Oral possibilita-nos a
elaboração de documentos que outrora não poderiam ou teriam condições de
corroborar para a análise do caso, subsistindo como material fundamental para a
compreensão do caso específico do território em estudo.
Segundo
Maria Isaura Pereira de Queiroz (1988),
“História oral” é termo amplo que
recobre uma quantidade de relatos a respeito de fatos não registrados por outro
tipo de documentação, ou cuja documentação se quer completar. Colhida por meio
de entrevistas de variada forma, ela registra a experiência de um só indivíduo
ou de diversos indivíduos de uma mesma coletividade. Neste último caso,
busca-se uma convergência de relatos sobre um mesmo acontecimento ou sobre um
período de tempo. A história oral pode captar a experiência efetiva dos
narradores, mas também recolhe destes tradições e mitos, narrativas de ficção,
crenças existentes no grupo, assim como relatos que contadores de histórias,
poetas, cantadores inventam num momento dado. (p. 19)
Para Borges
(2012), Thompson (1998) e Louro (1990), a Historia
Oral remete à Antiguidade, porém seu uso foi recorrente a partir de meados
do século XX, em que alcançou grande utilização acadêmico científica. Segundo
Vansina (1968) apud Borges (2012):
[...] as
sociedades orais utilizam a fala como meio de preservação de suas tradições,
mitos, valores que são transmitidos de uma geração para outra. Assim, para as
pesquisas que se apoiam nos pressupostos da Tradição Oral, o grupo tem mais
importância que o indivíduo em si, pois faz parte dessa tradição tudo aquilo
que o coletivo considera importante para o funcionamento e a existência daquela
sociedade. Os mitos e as explicações do mundo, as festas, os ritos, os
costumes, os hábitos domésticos integram esse conjunto de tradições que é
transmitido pela memória oral. (p. )
Com
o objetivo de coletar informações a respeito da organização social, cultural,
histórica e econômica do grupo, são registradas as falas dos autores, e tudo o
que é falado é passível de transposição para documentos escritos. Para Bom
Meihy (1996), a História Oral é o retrato oficial do depoente. Sendo assim, os
documentos são construídos conforme a versão oferecida pelo coletivo e pelo
indivíduo, que possuem autonomia no relato dos fatos ocorridos. As experiências
contadas são registradas através do encontro entre os sujeitos pesquisador e
pesquisado, em um elo de diálogo.
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Figuras 3, 4, 5 e 6: Oficina da Memória.
Outubro de 2013. Fotos de Simone Raquel Batista Ferreira.
Cabe ressaltar
que a história dos povos e comunidades tradicionais, via de regra, não se faz
presente nos registros oficiais, e quando citada, é de forma subalternizada em
relação às versões hegemônicas. Com o objetivo de produzir a visibilidade das
histórias vividas pelos povos e comunidades tradicionais em estudo, utilizamos
a metodologia da Historia Oral na Oficina
da Memória (iniciada em 26/10/2013), através de entrevistas individuais e
coletivas, buscando provocar e relembrar as relações que outrora tiveram e
ainda possuem com o território em questão.
Com o objetivo
de documentar as experiências vivenciadas nesse território em disputa, buscamos
compreender as formas de ocupação, com destaque ao uso tradicionalmente
efetivado por ribeirinhos, pescadores, camponeses e descendentes de indígenas,
que têm a terra e as águas como indispensáveis à sua existência material, simbólica
e afetiva. Além disso, a Oficina da
Memória nos possibilitou colher informações a respeito das genealogias
familiares e das transformações ocorridas historicamente no território.
1.3. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO E DOCUMENTAL
Embora
a história dos povos e comunidades tradicionais não se faça presente nos
registros oficiais, conforme dito anteriormente, buscamos confrontar os relatos
dos sujeitos pesquisados com documentos históricos e técnicos encontrados em
bibliotecas e órgãos públicos, como as bibliotecas da Universidade Federal do
Espírito Santo – UFES, o Arquivo Público do Estado do Espírito Santo - APES e o
Instituto de Defesa Agroflorestal do Espírito Santo – IDAF.
Na UFES e no
APES, pudemos consultar fontes históricas e estudos a respeito de: povos
originários indígenas do vale do rio Doce e do litoral do Espírito Santo – como
os Botocudos e Tupiniquins – que constituem a principal ancestralidade das
comunidades tradicionais locais; os processos de expropriação dos territórios
indígenas iniciados pela colonização européia, e continuados pelos latifúndios
da pecuária e a exploração de petróleo e gás; aspectos históricos da foz do rio
Doce, com destaque à Vila de Regência; dentre outros temas. Em alguns casos, o
diálogo das fontes secundárias (documentos
escritos) com as fontes primárias da
pesquisa (entrevistas) propiciou a complementaridade de informações que reafirmam
a existência do território tradicional.
No IDAF,
pudemos colher dados referentes ao histórico das posses e propriedades de
terras na região da foz do rio Doce, presentes particularmente no Fotocadastro de
Imóveis Rurais, documento técnico resultante do levantamento de campo realizado
nos anos de 1970-71. Dele consta o registro aerofotogramétrico da região,
acompanhado de mapa com a discriminação das posses e propriedades de terras.
Cada posse e/ou propriedade de terra, por sua vez, vem acompanhada de uma ficha
cadastral detalhada com dados referentes a: localização e tamanho da área;
situação jurídica da terra, acompanhada ou não de referências de documentação (posse,
propriedade ou em processo de requerimento junto ao Estado); confrontantes;
presença de cultivos e/ou vegetação nativa; estruturas produtivas e de moradia;
cadeia dominial sucessória, chegando ou não à origem (procedimentos de compra e
venda, até chegar às terras devolutas,
que pertencem ao Estado do Espírito Santo), acompanhada ou não das referências
de documentação.
O Fotocadastro
do IDAF é um documento oficial importante e possibilita averiguar se as posses
e/ou propriedades de terra existentes na região naquele período encontravam-se
regularizadas ou em processo de regularização. Quando
confrontados com informações mais atualizadas, esses dados possibilitam identificar
a presença de terras ainda devolutas na
região e localizá-las.
1.4. MAPEAMENTO
PARTICIPATIVO
Na
busca de conhecer o território tradicionalmente ocupado pelos ribeirinhos, pescadores,
camponeses e descendentes de indígenas, utilizamos a metodologia do Mapeamento Participativo. De acordo com
Chambers (2006), a habilidade da população local para fazer mapas só se tornou
amplamente conhecida e facilitada no início dos anos 1990. No entanto, segundo ele
e Acselrad & Coli (2008), há inúmeros
estudos que apontam que o mapeamento local e participativo já havia ocorrido em
diferentes locais do mundo, envolvendo principalmente populações indígenas. O
mapeamento e as diferentes formas de representações espaciais desenvolvidas pelas
próprias populações locais têm uma longa história, e muito provavelmente uma
pré-história. Já o mapeamento facilitado por pessoas de fora, os outsiders, seria mais recente (CHAMBERS,
2006).
No cenário
acadêmico, as raízes metodológicas do Mapeamento
Participativo estariam ligadas ao conceito de observação participativa e às
metodologias de pesquisa colaborativa. Para Herlihy e Knapp (2003 apud ACSELRAD, 2008), o Mapeamento Participativo
reconhece o conhecimento espacial e ambiental de populações locais e os insere
em modelos mais convencionais de
conhecimento. Para Colchester (2002 apud
ACSELRAD, 2008), os mapas comunitários revelaram-se ferramentas úteis para
mobilizar comunidades e gerar debates locais sobre a demanda por terra e o
manejo dos recursos naturais.
No Brasil, as
experiências de pesquisa com o uso da metodologia do Mapeamento Participativo têm destaque no Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia – PNCSA, que nasceu da
construção do antropólogo e Prof. Dr. Alfredo Wagner Berno de Almeida, da
Universidade Estadual do Amazonas – UEAM, atualmente coordenador do projeto,
junto com a Prof.ª Dr.ª Rosa Elisabeth Marin Acevedo, da Universidade Federal
do Amazonas - UFAM. O Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia
tem como objetivo dar ensejo à auto-cartografia dos povos e comunidades
tradicionais na Amazônia, no intuito de se ter um maior conhecimento sobre o
processo de ocupação da região e de fortalecer os movimentos sociais locais,
representativos de identidades coletivas referidas a situações sociais
territorialidades específicas.
As informações
referentes às formas de territorialidade tradicional presentes na área em
estudo começaram a ser colhidas em nossos primeiros encontros com a comunidade
e especialmente na Oficina da Memória (realizada
em 26/10/2013), a partir das entrevistas e conversas coletivas com os sujeitos
da comunidade, para que esses relatassem os usos e práticas realizadas no
território em disputa. Após esse momento, organizamos a Oficina de Cartografia Social (1.ª etapa realizada em 27/10/2013),
onde propusemos que os mesmos mapeassem o território onde viviam e vivem atualmente
em uma folha de papel, conforme podemos visualizar nas imagens a seguir:
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Figuras 7 e 8: Oficina de Cartografia Social: apresentação da
proposta de trabalho do Mapeamento Participativo. Outubro de 2013. Fotos de
Maria Jéssika de Oliveira Delpuppo.
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Figuras 9 e 10:
Oficina de Cartografia Social: elaboração do mapa do território pela
comunidade. Outubro de 2013. Fotos de Simone Raquel Batista Ferreira.
Nessa primeira
etapa da Oficina de Cartografia Social,
o mapeamento do território tem como premissa as referências do grupo, que
remontam às diferentes formas de uso no tempo presente e passado, tais como as
áreas de pesca, caça, coleta, plantios e moradias; as relações de parentesco e
de trocas efetivadas, dentre outros elementos.
Depois dessa
etapa do desenho do território, a Oficina
de Cartografia Social adentrou seu segundo momento, o do reconhecimento do
território e Georreferenciamento das
informações (iniciado em 27/10/2013 e finalizado nos dias 14 e
15/03/2014). Nesse momento, fomos
conduzidos pelos moradores da comunidade a conhecer o território, suas práticas
de agricultura, pesca, locais de moradia, lazer e locais de memórias, e realizamos
a marcação das coordenadas geográficas referentes aos pontos indicados pela
comunidade em aparelhos de GPS (Global Positioning System). Posteriormente, esses
dados foram inseridos em uma base cartográfica, com o uso do software ArcGis. O
mapa fruto do diálogo entre membros da comunidade local e pesquisadores foi
apresentado à comunidade na Oficina de Impactos Ambientais, realizada em
Regência no dia 12 de julho de 2014.
O Mapeamento Participativo possibilita a
discussão mais aberta entre interlocutores e os atores produtores do espaço,
colocando-se para as identidades coletivas como um espaço de maior liberdade
para a discussão dos conflitos socioterritoriais para quem os vive, pois os
mapas comunitários trazem uma dimensão política e de força a respeito das
demandas locais. A socialização e a troca de experiências durante o Mapeamento
Participativo, a construção coletiva do conhecimento, o exercício da
participação e o trabalho com o cotidiano possibilita pensar o espaço em que
estamos inseridos, para que possamos nele nos organizar.
|
Atividade
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Data
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|
1.
Reunião com a comunidade
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12/09/2013
|
|
2.
Reunião preparatória das
oficinas
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09/10/2013
|
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3.
Oficina da Memória
|
26/10/2013
|
|
4.
Entrevistas com moradores
antigos de Regência
|
09/11/2013 e
15/03/2014
|
|
5.
Oficina de Cartografia
Social
|
27/10/2013
|
|
6.
Reunião com a comunidade
|
19/02/2014
|
|
7.
Pesquisa documental e
bibliográfica
|
Março, abril,
maio, junho/2014
|
|
8.
Oficina de Cartografia
Social
|
14 e
15/03/2014
|
|
9.
Elaboração do Texto
|
Maio, junho,
julho/2014
|
|
10.
Elaboração do Mapa do
Território
|
Maio, junho,
julho/2014
|
Tabela
1: Atividades realizadas durante a elaboração do
estudo.
2. ÁREA DE ESTUDO
Denominada
Cabruca, a área de estudo onde ocorre a disputa territorial entre comunidades
ribeirinhas, pescadoras, camponesas e a empresa União Engenharia S.A., está
inserida num contexto de paisagem riquíssimo. Neste ponto muito especial do
Estado do Espírito Santo, adjacente à Foz do Rio Doce, a Cabruca é uma paisagem
remanescente do que foram as notáveis matas de aluvião e restinga da região da
planície sedimentar costeira do Rio Doce, antes da massiva degradação produzida
durante o século XX.
2.1 UM BREVE RESUMO GEOHISTÓRICO DA ÁREA DE ESTUDO
Para se
compreender a realidade geográfica das comunidades tradicionais da região da
Foz do rio Doce, deve-se levar em consideração a constituição das
tradicionalidades e das culturas, que advêm do contexto da paisagem. Deste
convívio, se constituem técnicas, saberes, mitos e a capacidade de reprodução
da vida. No livro da historiadora Maria
Lúcia Grossi Zunti (1941), verifica-se detalhadamente o que era a esta riqueza
da região das margens do rio Doce:
Soberbas
e centenárias, milhares de árvores cobriam o vale alteando suas copas
verdejantes contra o céu: perobas, cedros, jacarandás, ipês, jequitibás,
pau-brasil, parajus, guararemas, e muitas outras. Na primavera o verde
luxuriante salpicava-se de rosa, amarelo, roxo e vermelho [...]. Na mata imensa
e escura, centenas de animais rasgavam o silêncio, compondo com suas vozes uma
orquestração inenarrável: o pio das aves, o rosnado das jaguatiricas, o grito
dos macacos e o zumbido de milhares de insetos. Como senhores inquestionáveis
deste paraíso natural, reinavam os índios. Intrépidos e altivos, dominavam seu
“habitat”, donos da terra, da floresta e de tudo o que nelas havia. (p. 26)
Durante três
séculos e meio, o homem branco lutou para dominar a região. No entanto, alguns
elementos constituíam barreiras para tal domínio, como as densas matas das
margens do Rio Doce, os grupos indígenas com botoques cravados em suas orelhas
e bocas (Aymorés ou Botocudos), e a “febre amarela” que insistia em matar
muitos que se aventuraram na região.
A atividade do
porto em Regência Augusta, em paralelo ao quartel militar, fixou portugueses,
negros e caboclos no distrito. A expansão de fazendas na região durante todo o
século XX devastou a flora e por conseqüência, a rica fauna e os alagados. A
esta altura, os índios Botocudos estavam aculturados ou domesticados e não
seriam mais o problema de outrora, como cita Zunti (1941).
Com base no
contexto supracitado, verifica-se a complexidade da paisagem em termos socioculturais e ambientais, e a afiliação desta
paisagem ao contexto colonial e neocolonial. Nesta área de estudo, são muitas
paisagens que se aglutinam. Num primeiro momento, anterior aos movimentos
expansionistas do século XX, era uma área pantanosa e de matas densas. Com a
construção de canais de drenagem pelo antigo Departamento Nacional de Obras de
Saneamento (DNOS) – inicialmente com o argumento do “combate à febre amarela” e
posteriormente, destinada à disponibilização das terras para criação de gado e
outros usos de grandes corporações - houve um rasgo irremediável nesta
paisagem. Atualmente, verificam-se, na região da foz do rio Doce, algumas
manchas preservadas, em sua maioria relacionada às Áreas de Preservação
Permanentes e à Reserva Biológica de Comboios.
Outra mancha
preservada com área consideravelmente conservada está relacionada ao uso
tradicional dentro da mata na região da Cabruca, área denominada pelo IBGE como
Mata de Aluvião de manejo dos descendentes de índios da região e camponeses que
estão neste local, sobretudo com o plantio de Cacau (Theobroma cacao). Justamente
nesta área se encontra o conflito em questão entre ribeirinhos e a empresa União
Engenharia S.A. (pontos 4 e 5 da Imagem 1). Utilizando as imagens do programa
Google Earth, foi possível delimitar, de forma aproximada, as áreas da Imagem 1,
utilizando como recurso de identificação as estradas, cercas e construções que
foram vistas em visita a campo. Seguindo a sequência da legenda, verifica-se:

Imagem 1: Mostra o rio Doce e a complexidade socioambiental de sua planície
costeira.
Pontos em destaque na Imagem 1:
1-
Reserva Biológica de Comboios: Fundada 25 de setembro de 1984, a Reserva
Biológica de Comboios foi criada pela União, devido à importância ecológica da praia
e a rara ocorrência da Tartaruga de Couro (Dermochelys coriácea) e da Tartaruga de Pente (Eretmochelys
imbricata). A área da unidade perfazia, então, um total de 833,23 ha
(oitocentos e trinta e três hectares e vinte e três ares), que equivale a menos
de 20% da proposta original estabelecida em 1955, que era de aproximadamente
6.000 ha. (IBAMA, 1997)
2-
Terra Indígena de Comboios: Reconhecida pela Fundação Nacional do Índio
(FUNAI) como “área de ocupação dos índios Tupiniquim”, através da Portaria n.°
609/N de 08.11.1979, com área inicial de 2.300 ha, a Terra Indígena de Comboios
foi demarcada e homologada pelo Decreto n.° 88.601 de 09.08.1983, com área de
2.546 ha. Insatisfeitos com a situação, em 1993 os Tupiniquim encaminharam à
FUNAI a reivindicação de revisão dos limites de suas terras. Um Grupo Técnico
foi composto em 1994 e concluiu pela revisão dos limites da T.I. Comboios, que
passou a ter área de 3.800 ha (três mil e oitocentos hectares).
3-
Petrobrás:
Dentro da área destinada à Reserva Biológica de Comboios, encontram-se quatro
tonéis de armazenamento de óleo na beira da praia de Regência. Alguns
quilômetros ao norte, temos dezenas de cavalinhos mecânicos de exploração de
petróleo de superfície;
4-
Área do conflito: Local onde ocorre a disputa territorial entre a empresa União
Engenharia S.A. e os ribeirinhos e camponeses. Cabruca: Local onde há o uso
comum das terras, realizado por descendentes de índios e camponeses dentro das
matas ainda preservadas.
5-
Terras ocupadas pela União Engenharia S.A.: Atualmente, o limite das terras encontra-se
demarcado e identificado por uma cerca de arames com os pilares pintados em
azul e branco. Não foi possível a identificação total das terras da empresa,
por se tratar de uma área privada e cercada. A Imagem 2 abaixo mostra uma área
desmatada e duas construções recentes
dentro das terras ocupadas pela empresa União Engenharia S.A.

Imagem 2: Clareira aberta na mata e galpões construídos
dentro da área ocupada pela empresa União Engenharia S.A. Fonte: Google Earth,
2014. Acessado: julho de 2014.
6-
Comunidade Indígena de Areal: Comunidade com ancestralidade indígena ainda não
reconhecida pela FUNAI.
7-
Petrobrás:
Cavalinhos mecânicos de exploração de petróleo de superfície e tubos na região
de Areal e na área do conflito.
8- Distrito de
Povoação Linhares-ES.
9- Área
aproximada de Degredo, Linhares-ES:
Local onde a empresa MANABI comprou grande porção de terras para a instalação
de um porto que afetará territórios tradicionalmente ocupados e a
disponibilidade de recursos naturais.
10- Ilhas Fluviais: Formadas em decorrência
do processo de sedimentação do Rio Doce. Nestas Ilhas também ocorre o manejo do
cacau dentro das matas de aluvião.

Mapa 1: Uso do solo na planície costeira do Rio Doce. Fonte: PDIS – COMBOIOS
(2002).
2.2. CARACTERIZAÇÃO
GEOAMBIENTAL
Com
a ascensão da Ecologia nos estudos da paisagem e o aparecimento dos primeiros
estudos sistêmicos derivados da Teoria Geral dos Sistemas, Sotchava (1963)
formulou o conceito de geossistema, que caracteriza a paisagem como o resultado dos fluxos
de matéria e energia entre os meios bióticos e abióticos (RAMOS, 2012). Então,
em 1968, Bertrand propôs uma definição que abarcasse também a ação antrópica,
diferenciando-a do “complexo territorial natural” (PISSINATI, ARCHELA, 2009).
Esta evolução conceitual diferencia definitivamente o homem e suas ações sobre
o espaço, do contexto de uma paisagem natural ou intocada.

Figura 11: Esquema do método de estudo de geossistemas de Bertrand (1971) apud PISSINATI, ARCHELA (2009).
As classificações
de Bertrand serão utilizadas como base para exprimir fatos da paisagem da foz
do rio Doce através dos seguintes parâmetros: abióticos (geomorfologia, clima e
hidrologia), bióticos (fauna, flora e solo) e antrópico (ações humanas).
O autor Ramos (2012),
ao estudar a região do baixo rio Doce, onde se encontra a área de estudo,
classificou-a como Zona Ripária, ou seja, uma paisagem que apresenta reflexos
por estar próxima a corpos da água e/ou sofre influências sazonais de cheias ou
enchentes. Kobiyama (2003) apud Ramos
(2012) a definiu como um espaço tridimensional que contêm vegetação, solo e
rio, cuja extensão é, horizontalmente, até o alcance da inundação, e
verticalmente, do regolito (camada de rochas intemperizadas no solo) até o topo
da copa da floresta (acima). Para chegar a tal definição referente à região do
baixo rio Doce, Ramos (2012) realizou a análise geográfica integrada da área,
baseada em dados e informações obtidas
em estudos preexistentes, trabalhos técnicos e imagens de satélites, e pode
destacar como variáveis ripárias para o Baixo Rio Doce:
|
·
Morfologia
do Canal Principal
·
Áreas
de Proteção Permanente
·
Fragmentos
Florestais
·
Topografia
(Cota de 60 m)
·
Declividade
(> 45º)
|
·
Dados
Hidrológicos
·
Uso
e Ocupação da Terra
·
Carta
Topográfica
·
Ação
Antrópica (Histórico)
|

Mapa 2:
Zona Ripária no Baixo Rio Doce, definida por André Luis D. Ramos (2012).
A tabela a seguir mostra
escalas de observação da paisagem:

Tabela 2: Classificações de Bertrad (1971),
adaptado por Ramos (2012).
Cabe
ressaltar que Bertrand (1997), visando uma evolução de cunho epistemológico e
metodológico, propôs um sistema denominado GTP (Geossistema, Território e
Paisagem), destacando que a realidade do espaço geográfico pode ser
compreendida pelas três vias interdependentes. O esquema abaixo ilustra o
sistema GTP:

Figura
12:
Representação do sistema tripolar proposto por Bertrand (1997). Fonte: Bertrand
(1997) apud Torres (2003).
Nota-se que o
sistema proposto por Bertrand considera cada pólo como sistema complexo que coexiste
e se relaciona com os demais. Os mesmos demandam formas de análises
específicas, porém qualquer conclusão específica demandará uma análise integrada
dos três pólos. No presente capítulo,
trataremos dos parâmetros abióticos (geomorfologia, clima e hidrologia) e
bióticos (vegetação), dentro da perspectiva de geossistemas.
2.2.1. Geologia Geral e Geomorfologia
Segundo França apud Albino et al. (2006), na plataforma continental defronte ao Estado do
Espírito Santo, são reconhecidos dois compartimentos fisiográficos: o Bahia Sul - Espírito Santo, que se
estende de Belmonte (BA) a Regência (ES); e o Embaíamento de Tubarão, que começa em Regência e estende-se até
Itapemirim. Segundo Martin et al. (1996),
o litoral pode ser dividido em cinco unidades fisiográficas:
Setor 1 – Itaúnas, Bugia e
Guaxindiba, em Conceição da Barra;
Setor 2 – Meleiras, em Conceição
da Barra, Barra Seca, em São Mateus, Pontal do Ipiranga e Povoação, em
Linhares;
Setor 3 – Nova Almeida, Capuba e
Manguinhos, no município da Serra;
Setor 4 – Praias de Camburi, em
Vitória, Santa Mônica, em Guarapari e Maimbá, em Anchieta;
Setor 5 – Praias de Marataízes,
em Marataízes, Cações e Neves, em Presidente Kennedy.
A
área em estudo está inserida em numa zona classificada por Albino et.al. (2006) como Planície Sedimentar Quaternária, que apresenta características
pouco desenvolvidas e cuja evolução geológica está associada às flutuações do
nível do mar e à disponibilidade de sedimentos fluviais. Estes autores destacam
que o maior desenvolvimento de planícies sedimentares é encontrado nas
adjacências da desembocadura do rio Doce, que carreia sedimentos e os deposita
nos trechos onde há menor velocidade da água, sobretudo em sua foz. Este
trabalho de deposição sedimentar do rio Doce vem acontecendo há cerca de
120.000 anos e é responsável pela construção de sua Planície Sedimentar e
também de diversas ilhas. Com a continuidade do processo de sedimentação,
algumas dessas ilhas tornam-se contíguas ao continente. Os sedimentos carreados
vão preenchendo antigas passagens da água do rio Doce entre as ilhas e o
continente, e essas passagens se transformam nos “valões”, que são preenchidos
pela água ciclicamente, de acordo com o movimento de cheias do rio e também da
maré.

Mapa 3: Localização
da área em estudo, segundo a classificação de Martin et al. (1996).


Figura 13: Evolução da Planície Costeira do Rio Doce. Fonte: PDIS - COMBOIOS
(2002).
2.2.2. Clima
A
área em estudo é caracterizada por chuvas tropicais de verão, com estação seca
durante o outono e inverno. Porém, as duas últimas estações podem registrar
precipitações frontais de descargas devidas às massas polares. A temperatura
média anual é de 22° C, ficando a média das máximas entre 28° e 30° C, enquanto
que as mínimas apresentam-se em torno de 15° C. (ALBINO et.al., 2006)
De
acordo com dados disponíveis no Instituto
Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural – INCAPER, o município de Linhares tem a seguinte
divisão de zonas climáticas em escala local:

Mapa 4: Algumas características das zonas climáticas do município
de Linhares. Mapa de Unidades Naturais
(1999). Disponível em: http://hidrometeorologia.incaper.es.gov.br/caracterizacao/linhares_carac.php

Tabela 3: Classificações das zonas climáticas de Linhares. Fonte:
EMCAPA/NEPUT. Mapa de Unidades Naturais.
1999. Disponível em: http://hidrometeorologia.incaper.es.gov.br/caracterizacao/linhares_carac.php

Tabela 4: Características das zonas climáticas de Linhares. U - chuvoso;
S – seco; P - parcialmente seco.
Fonte: EMCAPA/NEPUT. Mapa
de Unidades Naturais. 1999.
Cabe
ressaltar que o Espírito Santo está situado na região de atuação dos fenômenos climáticos
denominados ZCAS e ZCOU (Zona de Convergência do Atlântico Sul e Zona de
Convergência de Umidade). Estes fenômenos são responsáveis pela intensificação
de chuvas na região sudeste do Brasil, cuja ocorrência é mais evidente entre os
meses de dezembro e fevereiro, e estão frequentemente relacionados às
catástrofes como os deslizamentos, cheias de rios, alagamentos,
desmoronamentos, etc. Um exemplo recente foi a chuva intensa no final de
dezembro. No município de Linhares, choveu cerca de 400 mm acumulados neste
período, segundo dados do dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). O mapa abaixo (Mapa 5) mostra o potencial destes eventos.

Mapa 5: Precipitação recorde em dezembro de 2013. Fonte: Earth Observatory.
|
Cidade/ Estado
|
Precipitação dezembro/2013
|
Mês anterior
|
Precipitação média
dezembro
|
|
Vitória,
ES
|
743.0 mm
|
662.8 mm
|
175.8
mm
|
|
Santa
Teresa, ES
|
832.6 mm
|
595.6 mm
|
new
station
|
|
Linhares,
ES
|
603.6 mm
|
493.4 mm
|
142
mm
|
|
Aimorés,
MG
|
852.4 mm
|
350.4 mm
|
213.9
mm
|
|
Governador
Valadares, MG
|
549.6 mm
|
403.4 mm
|
160.9
mm
|
|
Timóteo,
MG
|
703.4 mm
|
489.6 mm
|
195.1
mm
|
|
Capelinha, MG
|
921.8 mm
|
447.4 mm
|
182.8 mm
|
|
|
|
|
|
Tabela 5: Chuvas associadas às ZCAS em dezembro de 2013, que foram as maiores já
registradas nos meses de dezembro. Fonte: Earth Observatory.
2.2.3. Hidrologia
A
bacia hidrográfica do Rio Doce (Mapa 6), de domínio federal, está situada na
região Sudeste do Brasil, entre os paralelos 17°45' e 21°15' de latitude sul e
os meridianos 39°55' e 43°45' de longitude oeste, integrando a região
hidrográfica do Atlântico Sudeste (ANA, 2001), onde se destacam como principais
características (COELHO, 2007 apud
RAMOS, 2012):
·
Área da bacia:
83.465 km²
·
Área da bacia em
Minas Gerais: 71.863 km², aproximadamente 86%;
·
Área da bacia no
Espírito Santo: 11.602 km², aproximadamente 14%;
·
Extensão do
canal principal: Aproximadamente 879 km;
·
Número de
municípios: 229;
·
População:
Aproximadamente 3.294.000 habitantes (IBGE, 2007);
·
Principais
atividades econômicas: Mineração, Siderurgia, Silvicultura, Agropecuária.
Mapa 6: Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Fonte: Ramos (2012).
As cheias no Rio
Doce são comuns no verão, períodos que podem ter acúmulos de chuvas em toda a
extensão da Bacia, provocando cheias de grandes proporções e enchentes na sua
planície de inundação. Nas imagens de satélite abaixo (Imagens 3 e 4), é
possível dimensionar o que é, de fato, o Rio Doce e sua dinâmica hídrica:

Imagens 3 e 4: Imagens de satélite obtidas no dia 19/12/2013 (anterior à cheia)
e no dia 25/12/2013 (dia seguinte ao pico das chuvas). Fonte: Landsat 8.
Destaca-se nas
imagens acima que nos períodos de verão, com a ocorrência de ZCAS intensas, o
aporte de água sobre a planície sedimentar do Rio Doce provoca cheias e por
consequência, o Rio Doce ocupa dezenas de quilômetros além de seu leito normal.
Retomando a definição de Zona Ripária para este fragmento da paisagem,
utilizada por RAMOS (2012) (Mapa 2), verifica-se que o resultado das cheias
está dentro do esperado, ou seja, zonas caracterizadas pela influência dos
corpos de água. Ciclicamente, o Rio Doce constrói seu processo natural de
inundação e em sua foz, ocupa grandes extensões de terras, alimentando diversas
lagoas com suas águas e fertilizando solos com um grande acúmulo de matéria
orgânica que transporta. O Rio Doce se constitui, portanto, como um grande
agente transformador desta paisagem dinâmica.
2.2.4. Vegetação
A diversidade de
fatores como a presença de diferentes solos, a salinidade e a presença de
diversos corpos d’água, dentre outros, torna possível a existência de
diferentes tipos de matas na região da foz do Rio Doce (PDIS - COMBOIOS, 2002).
Na área em estudo, verifica-se a subdivisão da Mata Atlântica em: Matas de Aluvião e Mata de Cabruca (manejo de Cacau). O
manejo do cacau dentro da Mata de Aluvião é uma característica de uso do solo
em diálogo com a mata, ou seja, está incorporado à Mata de Aluvião e faz parte
de sua manutenção. Estes sistemas naturais já historicamente fragilizados não
são compatíveis com desmatamentos e/ou atividades industriais conforme pode ser
verificado na Imagem 2, que traz a abertura de clareiras realizada pela empresa
União Engenharia S.A. dentro da área de Cabruca por ela apossada.
Os mapas a
seguir (Mapas 7 e 8) ilustram a cobertura original da Mata de Aluvião do Rio
Doce e a situação atual próximo à sua foz, onde há o predomínio das pastagens
de gado e da exploração do petróleo.

Mapa 7: Cobertura original da Mata de Aluvião do Rio Doce. Fonte: PDIS –
COMBOIOS (2002).

Mapa 8: Cobertura vegetal na região da foz do Rio Doce em 2002. Fonte: PDIS –
COMBOIOS (2002).
2.2.5. Fauna
Segundo o
levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisas da Mata Atlântica (IPEMA)
para o projeto de implantação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável da
Foz do Rio Doce, a fauna da região apresenta grande diversidade e muitas
espécies endêmicas. Um total de 190 espécies de aves,
distribuídas em 55 Famílias, foram registradas na área em estudo. Entre as aves
não-passeriformes, as famílias com maior riqueza de espécies foram Ardeidae e Psittacidae, ambas representadas por oito espécies. Entre as aves
passeriformes, a Família Tyrannidae
apresentou a maior riqueza específica, com 22 espécies, seguida por Emberezidae, com 11 espécies (IPEMA,
2009). Outro resultado peculiar do inventário foi a constatação de que 60
espécies (31%) são dependentes do ambiente florestal e de que 11 (6%)
correspondem a endemismos do bioma Mata Atlântica (Idem, ibidem).
Há apontamentos da ocorrência de 80
espécies de anfíbios, sendo 63% de espécies endêmicas da Mata Atlântica. Em
relação à fauna de répteis, a Família Gekkonidae
apresentou duas espécies e as Famílias Tropiduridae,
Teiidae, Scincidae, Colubridae e Viperidae apresentaram apenas uma
espécie cada. Estudos anteriores realizados em áreas próximas à região citam
também as seguintes espécies: Dendropsophus branneri, provavelmente a
espécie citada como Dendropsophus sp2; Dendropsophus minutus,
Hybsiboas faber, Phyllomedusa burmeisteri e Sphaenorhynchus planicola.
Os estudos relacionados à fauna de répteis em áreas próximas ao Delta do Rio
Doce apontaram as seguintes espécies de répteis terrestres: Anolis sp., Enyalius
sp.; Ophioides striatus, Tupinambis meriane, Leposoma scincoides, Mabuya
macrorhyncha, Boa constrictor, Liophis miliaris, Philodryas olfersii e Spilotes
pullatus (Idem, ibidem). Além
destas, também foram observadas as seguintes espécies: Leposternum sp., Liophis
meridionalis, Oxyrhophus sp. e Cnemidophorus nativo, totalizando 21
espécies de répteis (IPEMA, 2009).
Através de registros diretos, indiretos e
de entrevistas com a comunidade local, foram registradas 27 espécies de
mamíferos não-voadores, e dentre eles, cinco espécies de mamíferos de pequeno
porte, sendo quatro marsupiais e um roedor, e 22 espécies de mamíferos de médio
e grande porte (Idem, ibidem). A fauna
de mamíferos de pequeno, médio e grande porte de não-voadores, como por
exemplo: Preás (Cavia aperea), Quatis (Nasua nasua), Tamanduás-de-colete (Tamanduá-de-colete), Cachorro-do-mato (Cerdocyon
thous), Puma ou Onça Parda (Puma
concolor), Jaguatirica (Leopardus
pardalis), entre tantos outros,
permite afirmar a grande relevância ambiental dessa região e sua
incompatibilidade com atividades industriais. Trata-se de uma fauna já
impactada em diversas outras localidades e que participa da manutenção de um
grande contingente energético com funções ecológicas na cadeia trófica. Além
disso, são altamente dependentes do complexo paisagístico remanescente ainda
verificado na foz do Rio Doce.
3.
POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS
3.1.
O PROJETO MODERNO COLONIAL E A CLASSIFICAÇÃO MUNDIAL DOS POVOS
Povos
e Comunidades Tradicionais – também chamados de originários – são grupos sociais que se
orientam por matrizes de racionalidade que se apresentam como contraponto em
relação ao projeto moderno colonial hegemônico, do qual foram objeto de
exploração e expropriação territorial e cognitiva. Segundo Ferreira (2009), o
conflito entre essas matrizes de racionalidade iniciou-se a partir da criação
dos Estados Modernos Ibéricos (séculos XV-XVI) e sua expansão territorial para
outros continentes, onde efetivaram um doloroso processo de dominação e
expropriação dos povos originários e seus territórios. No projeto colonial, a
natureza passava a ser transformada em mercadoria e, junto ao tráfico de
pessoas escravizadas da África, alimentou o lucrativo comércio que enriqueceu
uma determinada classe social de origem européia, em detrimento dos povos
originários dos territórios colonizados - que viriam a ser denominados América,
África e Ásia.
A relação
colonial criava a África e a América como espaços habitados por povos
“primitivos” e de “tempos passados”, enquanto a Europa nascia como vetor da
“civilização” e modernidade. Os diversos povos do mundo passaram a ser classificados,
então, dentro de uma escala que ia dos “primitivos ou selvagens” aos
“civilizados”, onde o desenvolvimento
capitalista dos Estados europeus era projetado como o caminho único e
determinado para que toda a humanidade atingisse o nível da civilização. No
mesmo sentido, elegia-se como única a história do expansionismo ibérico sobre
os demais povos, que foram classificados como “sem história”. Uma pretensa
“história mundial” e “moderna” se inaugurava, ignorando e invisibilizando
diversas histórias milenares. Estas novas identidades invisibilizavam os povos
colonizados em suas singularidades históricas e diversidade de saberes. Na
América, a diversidade de povos como astecas,
maias, aimarás, incas e chibchas, dentre outros, ficou reduzida
à limitante identidade de “índios”; enquanto os povos ashantes, iorubás, zulus, congos e bacongos, dentre
outros trazidos forçadamente da África como escravos, foram reduzidos à
classificação de “negros” (QUIJANO, 2005). Para justificar a dominação colonial
européia, estes povos originários foram retirados de seu lugar de produção
cultural da humanidade e considerados inferiores,
aqueles que necessitavam da sabedoria e da civilização branca e cristã do Ocidente: sua alteridade era criada
enquanto um “espaço vazio”. Desconsiderava-se assim todo um universo de saberes
ancestrais, formas de ser, fazer e conceber elaboradas por estes povos e que
orientavam suas relações entre si e com a natureza. Desta maneira, a
colonização impunha-se na esfera cognitiva, elegendo a perspectiva do
conhecimento europeu como a única racional e, portanto, superior: a colonialidade do saber e do poder.
O colonialismo
europeu inaugurado nos séculos XV e XVI configurava, portanto, novas relações
de poder a nível mundial, que explicitavam divergências entre as matrizes de
racionalidade eurocêntrica e dos demais povos colonizados. Nestas relações, o desenvolvimento do sistema do capital,
fundamentado na acumulação de riquezas e de poder oriunda da exploração
exaustiva da natureza e do trabalho, sobrepunha-se a todas as demais formas de
organização social, política e econômica existentes no mundo, orientadas por
princípios que tinham a natureza como principal sustentação da vida. Em seu
movimento de expansão contínua e trajetória pretensamente linear, o desenvolvimento rompia com a
circularidade do espaço-tempo tão característica da organização dos povos não europeus,
onde a reprodução da existência dava-se pelo envolvimento cotidiano das famílias, grupos, clãs, tribos e
comunidades (FERREIRA, 2009).
O novo padrão
mundial de poder capitalista determinava as novas identidades sociais e
geoculturais dos povos através desta classificação social, que passou a associar
a relação de dominação colonial eurocêntrica a uma hierarquia racial. O novo
padrão mundial de poder que se instituía trouxe a idéia da
raça como um de seus eixos
fundamentais, enquanto codificação das diferenças entre conquistadores e
conquistados, uma supostamente distinta estrutura biológica que situava alguns
em situação natural de inferioridade em relação a outros. Essa idéia foi
assumida pelos conquistadores como o principal elemento construtivo,
fundacional, das relações de dominação que a conquista territorial exigia:
Na América, a idéia de raça foi uma
maneira de outorgar legitimidade às relações de dominação impostas pela
conquista. [...] historicamente, isso significou uma nova maneira de legitimar
as já antigas idéias e práticas de relações de superioridade/inferioridade
entre dominantes e dominados. Desde então, demonstrou ser o mais eficaz e
durável instrumento de dominação social universal [...]: os povos conquistados
e dominados foram postos numa situação natural de inferioridade e
consequentemente também seus traços fenotípicos, bem como suas descobertas
mentais e culturais. Desse modo, raça converteu-se no primeiro critério
fundamental para a distribuição da população mundial nos níveis, lugares e
papéis na estrutura de poder da nova sociedade. Em outras palavras, no modo
básico de classificação social da população mundial. (QUIJANO, 2005, p.228)
A
racialização das relações de poder
passaria a identificar no corpo dos povos colonizados a marca de sua inferioridade, grafada e legitimada
pelas características fenotípicas. Desta maneira, a situação de dominado e
“inferior” atribuída aos povos não europeus, não brancos, não cristãos, não civilizados
e não desenvolvidos ficava grafada no
corpo não branco, e desta maneira se perpetuaria para além do colonialismo. Tal
classificação resultou introjetada no imaginário colonial e permanece numa
relação sedimentada de colonialidade. A
colonialidade constituiu-se enquanto
relação de poder que cristalizou a superioridade dos povos de origem européia,
brancos, capitalistas e cristãos, sobre os povos de origens diversas,
não-brancos e que orientam a reprodução da própria existência material,
simbólica e afetiva a partir de outros referenciais cosmológicos (FERREIRA,
2009).
Segundo Quijano (2005), embora o momento
histórico moderno colonial tenha oficialmente cessado, no atual padrão de poder
mundial ainda permanecem práticas de colonialidade
que teimam em manter a dominação e expropriação territorial dos povos
originários e comunidades tradicionais, que são classificados como “inferiores”
frente ao modelo desenvolvimentista capitalista.
3.2.
POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS DA FOZ DO RIO DOCE
A região da foz
do rio Doce traz a presença de diversas comunidades tradicionais, originárias,
sobretudo, dos povos indígenas que aí se territorializavam desde tempos
anteriores ao processo colonial e se encontraram com povos de outras origens,
como africanos e também europeus. Desse encontro étnico nasceriam as
comunidades tradicionais da foz do rio Doce, que construíram seu modo de vida
intimamente entrelaçado com as potencialidades oferecidas pelo ambiente fértil,
como é o caso dos pescadores artesanais, dos ribeirinhos, das comunidades
indígenas, quilombolas e camponesas.
Ainda no século
XIX, o povoamento colonial do Espírito Santo concentrava-se ao sul do rio Doce,
enquanto o norte permanecia distante e praticamente inatingível em meio a sua
grande floresta habitada pelos povos indígenas e também por comunidades negras
fugidas da escravidão.
Segundo
estimativas de John Hemmining, em 1500, existia uma população de 160 mil índios
no Espírito Santo e em Ihéus, dentre os quais 12 mil Waitacás, 55 mil
Tupiniquins, 10 mil Temiminós, 15 mil Papanás, 30 mil Aimorés ou Botucudos, 8
mil Puris e 30 mil Cariris, Guerens, Camurus e outros, dentre toda a população
indígena do país, calculada em 2.431.000 pessoas. Na década de 1880, este
número teria sofrido uma forte diminuição, em decorrência das epidemias,
guerras, chacinas e fome provocadas pelo processo de colonização regional, e
Ehrenreich estimou que entre as regiões dos rios Mucuri, Doce, Pancas, Guandu e
Sassuhi existiriam por volta de 5 mil índios (MOREIRA, 2001).
Se neste momento
intensificava-se a expansão colonialista nesta região, os povos Botocudos
teimavam em resistir à expropriação de seus territórios. Os povos Botocudos
compreendiam diversas etnias do tronco lingüístico Macro-Jê, “grupos nômades e
de tradições guerreiras, vivendo de caça e coleta em extensas áreas da Mata
Atlântica [...] nas regiões circundantes dos rios Jequitinhonha, Mucuri, Doce e
Pardo” (DUARTE, 2002).
Os
Tupiniquins constituem um subgrupo
dos Tupinambás, ou, mais genericamente, dos chamados Tupi da Costa,
classificados na família lingüística Tupi-Guarani, que habitavam estreita faixa
de terra entre Camamu (Bahia) e o rio São Mateus (Espírito Santo). Sendo um
grupo costeiro, os Tupiniquins sofreram todo o impacto do processo de
conquista. A presença dos Tupiniquins no litoral do Espírito Santo foi
registrada por diversos viajantes que passaram por esta região entre os séculos
XVI a XIX (ANAÍ, 2010).
Assim como a
floresta apresentava-se ao colonizador como “impenetrável” e “incompatível” com
a vida humana, estes povos da floresta foram classificados como “bravios” e
“selvagens”, portanto avessos ao processo de “civilização” trazido pelo
colonizador europeu. Neste sentido, por todo o território colonial, a floresta
e seus povos passaram a ser construídos como obstáculos que deveriam ser
eliminados, abrindo espaço à ocupação agrícola, pecuária e mineradora.
A diminuição
expressiva da população indígena foi resultante, portanto, da política colonial
de dominação do território. Quando amansados, os diversos povos originários
deixavam de ser reconhecidos pelo nome de suas tribos e passavam a ser
denominados pelas categorias genéricas “índio”, “caboclo” ou “mestiço”,
diluindo-se nas estatísticas demográficas enquanto “população livre”[1] – fator
que apagava suas histórias ancestrais de apropriação do território. Segundo
Moreira (2001), dentre estes povos, os Tupiniquins e Temiminós foram os que
primeiro sofreram a dominação e aculturação colonial, sendo recrutados desde o
século XVI para prestar serviços à administração local em trabalhos forçados,
guerras e também no desbravamento das matas do rio Doce, onde ficavam expostos
aos ataques dos Botocudos, transformados em inimigos a ser caçados, escravizados
e dizimados:
Do ponto de vista da Coroa portuguesa, existiam no
Brasil, portanto, dois tipos de índios: os inimigos, ou tapuias, e os de pazes.
[...] Os estereótipos contra os índios acabaram reforçando as atitudes hostis,
as chacinas, e mesmo depois de cessada oficialmente a guerra, as bandeiras
ilegais que ocorreram ao longo de todo o século XIX. Durante a vigência da
guerra ofensiva, as bandeiras contra os índios geraram mortos e trabalhadores
cativos para as fazendas locais e para a administração pública. (p.112 e 120)
Tapuia foi
o termo utilizado para classificar os índios inimigos, como os Puris (ao sul do
Espírito Santo) e os Botocudos (ao norte). Para os indígenas Tupis, Tapuia significava cativo, escravo,
denominação atribuída aos povos por eles vencidos em sua conquista do litoral
brasileiro, também equivalente a bárbaro ou estrangeiro (SAMPAIO, 1987). Tomada
pelo colonizador europeu, esta definição Tupi foi aplicada para designar
aqueles grupos indígenas que resistiam à colonização, e portanto, deveriam ser
amansados ou exterminados.
A região da foz
do rio Doce favoreceria o encontro entre as etnias dos Tupiniquins – que ocupavam o litoral, e os Aimorés ou Botocudos –
que ocupavam e se deslocavam pelo Vale do rio Doce. A farta presença de água
doce e a diversidade de alimentos das águas e da mata ciliar do rio atraíam
esses e outros grupos humanos, que procuravam satisfazer suas necessidades mais
básicas. Ao que tudo indica, esses fatores propiciaram o compartilhar dessa
porção territorial entre diversos grupos. Ainda hoje, essas origens são
testemunhadas pela presença de comunidades indígenas e também por relatos de
moradores da comunidade de Regência (município de Linhares/ES) e arredores,
local do nosso estudo:
- Tudo dos índios, nós somos
descendentes de índio mesmo, filhos daqui do lugar, nativo. [...] Sou povo
tradicional, da foz do Rio Doce, dos Botocudos, tenho minhas origens. [...] Meu
pai Já faleceu, minha mãe tem 88 anos, meu avô morreu com 90 anos, finado
Xandoca Maciel do Santos, minha vó, Morena, filha do lugar, morreu com 70 anos
doente, eu era pequeno na época, eles já viviam aqui na terra, minha bisavó foi
pegada a laço e morreu com 120 anos. Viviam aqui. (Gerônimo)
- Vovó por parte de mãe era índia, e
parece que o marido da minha avó era africano; era negro.
- Sua avó era de qual descendência
indígena?
- Não lembro. Não sei se era
Tupiniquim [...], não lembro. Era índia daqui mesmo, da foz do rio Doce. (Zé de
Sabino)
Enquanto os Botocudos
tornavam-se alvo das investidas coloniais de
extermínio em decorrência de sua resistência territorial, os Tupiniquins
passariam a ser alvo dos aldeamentos indígenas criados pela Coroa Portuguesa. Na
região do rio Piraqueaçu, onde se concentravam os Tupiniquins, o padre Afonso Brás fundou, em 1556, a Aldeia Nova,
transferida, em 1580, para o aldeamento dos Reis Magos (Iapara) de maioria
Tupiniquim. Em 1610, o jesuíta da Aldeia dos Reis Magos, Padre João Martins,
requereu ao governador da Capitania uma sesmaria para abrigar os Tupiniquins. O
território tinha 200 mil hectares e se estendia de Santa Cruz (município de
Aracruz) até a Aldeia de Comboios. Em 1760, a Coroa Portuguesa demarcou somente
as terras habitadas dessa sesmaria de 1610, que se constituiu na primeira
demarcação de terras Tupiniquim (ANAÍ, 2010).
Até a primeira metade do século XX, os Tupiniquins
viveram nestas terras demarcadas pela Coroa Portuguesa em 1760, dispersos em
dezenas de aldeias. Suas aldeias foram destruídas na sua quase totalidade pelo
processo de expropriação de seus territórios, sobretudo através da exploração
da floresta para a produção de
carvão e, posteriormente, dos monocultivos de eucalipto destinados à produção
de celulose.

Mapa 9: Terras Indígenas no estado do Espírito Santo em
diferentes momentos: Sesmaria destinada aos Tupiniquim (1610); Terras Indígenas
demarcadas (1983): T.I. Comboios, T.I. Pau Brasil e T.I. Caieiras Velha; e
ampliação dos territórios (2005). Fonte: MARACCI, M.T. (2008).
Em 1967, chega na região um grupo indígena Guarani
vindo do sul do país, numa caminhada iniciada nos anos de 1940, que foi
acolhidos pelos Tupiniquim e passou a viver na aldeia Caieiras Velhas. Frente ao processo expropriatório oriundo da exploração da floresta para a produção de carvão (a partir dos anos 1940) e dos
monocultivos de eucalipto destinados à produção de celulose (a partir de meados
dos anos 1960), os Tupiniquim e os Guarani iniciaram um processo de lutas
pela regularização de suas terras, que teve início em 1975 e resultou na
Portaria n.° 609/N de 08.11.1979, declarando como área de “ocupação dos índios
Tupiniquim”: Caieiras Velhas (2.700 há); Pau Brasil (1.500 há); e Comboios (2.300
ha.). Porém, como essas terras haviam sido apropriadas pela empresa Aracruz
Celulose S.A., a empresa propôs à FUNAI um acordo, que foi assinado em 1981 e
resultou numa demarcação de áreas menores: Comboios
(2.546 ha - Decreto n.° 88.601 de 09.08.1983), situada ao sul da Vila de
Regência e confrontante à Reserva Biológica de Comboios; Caieiras Velhas (1.519 ha - Decreto n.° 88.926 de 27.10.1983); e Pau Brasil (426 ha - Decreto n.° 88.672
de 05.09.1983). (CIMI, 1996).
Como haviam perdido cerca de 2.000 hectares em
relação à proposta inicial, os Tupiniquins
encaminharam à FUNAI a reivindicação de revisão dos limites de suas terras. A
Portaria n.° 783 de 30.08.1994 instituiu o Grupo Técnico que indicou a
unificação das Terras Indígenas Caieiras Velhas e Pau Brasil, que passou a se
chamar T.I. Tupiniquim (14.270 ha.), e também a revisão dos limites da T.I.
Comboios (3.800 ha.).
Atualmente, a presença indígena na região se
encontra disseminada não só nessas terras indígenas demarcadas, como também em
outras comunidades que remetem suas origens e parentesco a famílias indígenas,
conforme verificado em Regência:
- Seu pai
também é daqui? Nascido, criado?
- É, daqui mesmo, aliás, de Comboios.
- De
Comboios. Como é o nome do seu pai mesmo?
- José Siqueira. (Maresia)
Também a Comunidade de Areal, situada em
localidade próxima a Regência, identifica vestígios arqueológicos cerâmicos
numa área nas margens do Rio Preto, que outrora constituía parte de seu
território. Tais vestígios compõem fragmentos de potes cerâmicos que se
encontram enterrados e segundo relatos locais, indicam serem urnas funerárias,
conforme pode ser verificado nas imagens a seguir:
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Figuras 14 e 15: Vestígios
arqueológicos de potes cerâmicos encontrados enterrados em área à margem do Rio
Preto, próximo à Comunidade de Areal. Fotos: Simone Raquel Batista Ferreira,
10.11.2013.
A Comunidade de Areal identifica-se como de
origem Botocuda e vem pleiteando seu reconhecimento junto à Fundação Nacional
do Índio (FUNAI). Atualmente, a área ocupada pelas famílias restringe-se a uma
porção de terras que um ancestral conseguiu documentar, e ainda assim, é
atravessada por instalações de dutos da Petrobras. O restante das terras e
lagoas reconhecidas pela comunidade como seu território encontra-se ocupado por
essas instalações e também por extensas fazendas de gado.
3.3.
MODO DE VIDA E FORMAS DE TERRITORIALIDADE
Comunidades indígenas, ribeirinhas,
quilombolas, de pescadores artesanais e camponeses tradicionais mantêm uma
relação intrínseca de diálogo com a natureza, a partir do qual produzem a
própria existência material, simbólica e afetiva. Convivem diretamente com as
dinâmicas dos ciclos naturais e possuem saberes importantíssimos a respeito da
biodiversidade que vivenciam. Segundo Porto-Gonçalves (2006 a), há sempre um saber inscrito no fazer, e no caso das comunidades tradicionais, os saberes nascem do
manejo direto da natureza.
Seu vivido territorial é produzido no
cotidiano (LEFEBVRE, 1974) e constitui a morada dos valores materiais, éticos,
espirituais, simbólicos e afetivos que perpassam as histórias de vida, selam
cumplicidades, identidades e o sentimento de pertença em relação ao território.
Neste sentido, organizam a reprodução da própria existência a partir de
referenciais econômicos, culturais e cognitivos não eurocêntricos e não
capitalistas.
Segundo Diegues (1998), os
sistemas tradicionais de acesso a espaços e recursos de uso comum existem por
um largo período de tempo em comunidades tradicionais não-urbanas e se
caracterizam pela utilização comum de determinados recursos, como peixes e
outros animais, plantas medicinais, frutos, fibras, águas e áreas para cultivos
agrícolas itinerantes. Além dos espaços usados em comum, existem outros
apropriados pelas famílias, como o lugar da habitação, quintal, criação de
animais domesticados, hortas, casas de farinha, dentre outros.
Essas formas de
apropriação comum de espaços e recursos naturais renováveis se caracterizam
pela utilização comunal (comum, comunitária) de determinados espaços e recursos
por meio do extrativismo vegetal (cipós, fibras, ervas medicinais da floresta),
do extrativismo animal (caça e pesca), e da pequena agricultura itinerante.
Além dos espaços usados em comum, podem existir os que são apropriados pela
família ou pelo indivíduo, como o espaço doméstico (casa, horta, etc.) que,
geralmente, existem em comunidades com forte dependência do uso de recursos naturais
renováveis que garantem sua subsistência, demograficamente pouco densas e com
vinculações mais ou menos limitadas com o mercado. (DIEGUES, 1998, p.66)
As terras tradicionalmente ocupadas são
aquelas organizadas pela apropriação e uso comum dos recursos, onde o controle
dos recursos básicos se dá através de normas específicas, que são acatadas nos
meandros das relações sociais estabelecidas entre vários grupos familiares, que
compõem uma unidade social em territórios próprios (ALMEIDA, 2005). Essas
formas de apropriação comum de espaços e recursos naturais renováveis
constituem modelos culturalmente
específicos da natureza (ESCOBAR, 2005),
presentes nos territórios
de uso tradicional caracterizados pelo sentimento de
pertencimento ou identidade do grupo.
Na Comunidade
Ribeirinha da Foz do Rio Doce, pudemos encontrar práticas que testemunham
um modelo culturalmente específico de
natureza nos territórios de uso tradicional.
Dentre essas práticas, tem destaque a Cabruca,
uma forma de manejo tradicional que produz plantios de frutíferas dentro da
mata ciliar do Rio Doce e seus afluentes, com destaque ao Cacau (Theobroma cacao).
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Figuras 16 e 17:
Prática tradicional da Cabruca dentro
da matas ciliares do Rio Doce (cultivo de Cacau) e do Rio Preto (cultivo de
cacau e palmito). Fotos: Simone Raquel Batista Ferreira, 26.10.2013 e
14.03.2014.
Para
compreendermos o significado dos territórios
de uso tradicional, faz-se necessário aprofundar-nos, inicialmente, no
conceito território. Entendemos o território enquanto fruto e processo
relacional de apropriação social do espaço, sempre em movimento. Todos os
sujeitos e grupos sociais constroem sua existência material, simbólica e
afetiva a partir da apropriação do espaço, no qual constroem seus modos de viver
(FERREIRA, 2009).
Considerar o território como um processo relacional no espaço e no tempo implica
entendê-lo como uma constante construção, onde se re-elaboram as relações
histórico-sociais com o espaço material (HAESBAERT, 2004; PORTO-GONÇALVES,
2006). A combinação dessas relações irá configurar as características do território, de acordo com as formas de
apropriação, uso e/ou domínio do espaço que se efetivam e se desdobram ao longo
de um continuum que vai da dominação
político-econômica à apropriação mais subjetiva e/ou cultural-simbólica,
conforme os projetos dos sujeitos e grupos sociais (HAESBAERT, 2004). Essas
relações existenciais e/ou produtivistas vivenciadas pelos sujeitos sociais
constituem a multidimensionalidade do vivido
territorial e caracterizam as marcas da apropriação do espaço que se
efetivam, ou seja, suas formas de territorialidade
(RAFESTIN, 1993 [1980]).
Os diferentes territórios e suas territorialidades
representativas são construídos por processos de territorialização, que se encontram no âmbito das estratégias
intencionalmente criadas e exercidas pelos grupos sociais para a manutenção de
seus territórios (SACK, 1986). Essas formas de territorialidade estão vinculadas a distintas matrizes de
racionalidade, que diferenciam os projetos hegemônicos e contra-hegemônicos
(PORTO-GONÇALVES, 2006) e engendram comportamentos, representações, e
investimentos nos tempos e nos espaços sociais, culturais e cognitivos
(GUATTARI e ROLNIK, 1986).
As distintas formas de territorialidade diferenciam-se de
acordo com as relações de apropriação e/ ou dominação do espaço que efetivam:
no espaço apropriado e vivido pelas comunidades campesinas e tradicionais,
produz-se um saber-fazer, do tato e do contato, um “saber com” a natureza; enquanto no espaço dominado por grandes
empreendimentos capitalistas, há um “saber
sobre” a natureza (PORTO-GONÇALVES, 2006), oriundo de relações que
materializam um espaço unifuncional. A territorialidade tradicional
fundamentada em saberes específicos e na relação dialógica com a natureza é
expressa pela memória dos moradores locais:
- Como era a vida aqui antes da
chegada das empresas e latifundiários, qual era a alimentação de vocês [...]?
- O que a gente fazia
a gente comia, não precisava ter muita coisa, a gente fazia uma roça de
plantação, aí dava pra gente comer, plantava Mandioca, Aipim, Batata,
substituía o pão, beiju de massa, goma, misturado. Saía para catar fruta no
mato, Bacupari, Cambucá, Caju, Maracujá do mato, Goiaba, Araçá. Nós Vivíamos
para comer. Vivia da Natureza. (Gerônimo)
Na Comunidade Ribeirinha da Foz do Rio Doce,
além da Cabruca, pudemos observar
outras formas de manejo tradicional que buscam dialogar com a dinâmica da natureza. Na produção do alimento,
alguns relatos agradecem a fertilização da terra após as cheias do Rio Doce,
que trazem e depositam sedimentos e matéria orgânica. Além disso, as cheias
garantem a umidade da terra, dispensando o uso de irrigação. É por essa razão
que as terras situadas entre os rios Doce e Preto apresentam maior fertilidade
natural, pois são constituídas de barro e matéria orgânica, com grande retenção
da umidade, ao contrário das outras terras predominantemente constituídas por
sedimentos arenosos, que não apresentam esses perdem a umidade por percolação. As roças são
preferencialmente feitas nessas terras argilosas – como é o caso do milho e do
feijão - e, em alguns casos, algumas técnicas são utilizadas para preservar os
cultivos frente às cheias dos rios, como é o caso das hortas feitas em
canteiros suspensos. Nos terrenos arenosos, pode-se cultivar a mandioca, a
abóbora, a melancia e a cana de açúcar.
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Figuras 18 e 19:
Horta suspensa às margens do Rio Preto; cultivos e moradia às margens do Rio
Doce, na terra argilosa . Fotos: Simone Raquel Batista Ferreira, 14.03.2014 e
26.10.2013.
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A fertilidade do ambiente encontrado junto à foz do
rio Doce propiciou a construção de um modo de vida dos povos originários da
região e também de seus descendentes, a partir da fartura de alimentos aí
encontrada:
- Minha vó que era índia, por parte
de mãe e meu pai era nordestino, de Sergipe. Veio para cá com 12 anos de idade,
é o que ele nos conta, e constituiu família aqui, né. Casou com mamãe. Papai
era pescador e sempre trabalhava na roça, terreno que nós temos hoje aí. Papai era
da forma que vivo hoje, tenho roça e pesco também, eu sou guerreiro igual papai
era; era um cara muito trabalhador, pecava e tinha roça. Hoje eu espelho no meu
pai. [...] Na época não tinha caminho para Linhares, então nós vivíamos do que
tinha aqui mesmo. Papai tinha roça, onde colhíamos quiabo, maxixe, tomate e
outras coisas para casa, e a parte de alimentação de carne era bicho do mato
que a gente matava, ou peixe que a gente caçava. Alimentação nossa era peixe ou
carne. (Zé de Sabino)
- Pescaria antigamente tinha muito
peixe. Eu devo ter no volume de rede hoje, umas cinquenta redes. Naquela época,
papai tinha uma rede só, e a gente pescava numa fartura só; a gente salgava o
peixe, pois não tinha como vender. Era só para comer e, o que sobrava a gente
salgava e levava para uma mercearia ali e trocava peixe por meio quilo de
açúcar, meio quilo de café. O dono, que era indígena, para manter a mercearia
dele ele tinha um barco de motor que ia até Linhares buscar mantimentos para a
mercearia dele. Ai ele vendia querosene, açúcar e etc. (Zé de Sabino)
Essa fertilidade transparecia na forte presença da
floresta tropical nas margens do rio Doce, que é testemunhada pela lembrança
dos lugares das moradias e dos deslocamentos, que eram feitos por trilhas
dentro da mata e também pelo próprio rio, da sua foz até as cidades de Povoação
e Linhares:
- Morava dentro da
mata, na casa de estuque, a minha
casa, porém, que fui criada, era de estuque tampada com sapê. [...]
- Quantos anos você
tem agora?
- Eu hoje tenho 46
anos.[...]
- As trilhas, nós andava nas trilhas. [...] Aí
a gente andava, o pé afundava na trilha. A areia era branquinha de tão, ficava
branquinha de tanto passar. Os trilhozinhos. Aí passava cavalo com os balaios,
com as bolsas que tinha, as bolsa, né, pra gente trabalhar. Porque a gente só
trabalhava com animal, era junta de boi. Quem podia comprar, era junta de boi,
quem não podia, era cavalo. Aí tinha uns cavalos mansinho, a gente ia,
deslocava por onde a gente podia deslocar com animal, a gente deslocava; quando
não era com animal, era a pé; quando não era a pé, era por água com as canoas.
- Por onde vocês iam por água?
- Por água nós ia em
Povoação, nós chegamos em Linhares várias vezes por água, nós ia em Linhares
direto por água, porque Linhares também só tinha duas ruas quando a gente ia.
(Kátia)
O ambiente também fornecia recursos utilizados na
construção das moradias, como o barro, galhos de árvores e fibras, utilizados
na técnica do estuque:
- Como era a moradia de vocês?
- Casa de estuque. Aquela que bate
barro. [...] Era nós mesmo que fazia. Fazia a massa. Pegava o barro lá no porto
e amarrava as varinhas. [...] Barro era no rio. Fazia um barro misturado com
areia, aí botava umas varinhas amarradas, né. [...] Aí fazia um amarradinho de
varas, colocava eles para fora, assim, e aí batia a massa. Batia e depois não
dava nem mais para ver a vara por fora. Batia duas bandas de massas, uma por
dentro e outra por fora, e passava a mão. Quase não via as varinhas depois.
Então, era assim as casas da gente. E as telhas eram de cipó, de mato de capim
e palha de coqueiro. (Zé de Sabino)
Dentre os materiais utilizados na
construção das moradias de Estuque, temos: o Ubá, o Palmito Amargoso
(lascado, usado nas paredes), as “taubinhas” das madeiras Caixeta, Paraju, Pelada (usadas para a cobertura, junto
com o Sapê). Para amarrar as varas
que sustentam as paredes, os cipós Macambirra,
Milome, Guaimbê, Jacaré ou Cascudo, encontrados na mata.
Em campo, pudemos observar moradias ainda
construídas com a técnica tradicional do Estuque
e também da Palafita, revelando não
só o uso de recursos disponíveis no ambiente (barro e madeira, por exemplo),
como também a adaptação técnica à dinâmica hídrica do Rio Doce, uma vez que as palafitas possibilitam a passagem das águas
das cheias por baixo das casas:
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Figuras 20 e 21: Moradias
tradicionais nas margens do Rio Doce: Casa de Estuque e Casa de Madeira feita
no sistema palafita, que deixa o
assoalho distante do chão e possibilita a passagem das águas do Rio Doce no período
das cheias. Fotos: Simone Raquel Batista Ferreira, 15.03.2014 e 26.10.2013.
O
ambiente também ainda fornece os recursos para a produção de utensílios do
cotidiano, como esteiras para dormir,
jequis e remos para pescar:
- Era tudo daqui da
região. O colchão era de esteira, que era confeccionado pelas pessoas daqui da
região. [...] As esteiras eram feitas de Tabua.
Tabua é capim que dá na beira entre o
rio e o mar, bem próximo da foz, no monte de molhado de água salgada. Aí
cortava a Tabua, botava na areia da
praia, a Tabua secava. Aí esperava
juntar aquele montão de Tabua seca,
botava nas costas na praia e trazia para casa. Em casa, tinha uma máquina de
confeccionar. Enrolava um pau, assim, grosso, desenrolava a corda ali, Embira. Enrolava a Embira naqueles paus ali; o nome da madeira que enrolava chamava Bigo. Minha mãe falava como que era.
Pendurava assim, vinha aqui, colocava um monte de Tabua e amarrava. E demorava a fazer esteira, viu? (Zé de Sabino)
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Figuras 22 e 23: Jequis feitos de bambu e amarrados com cipó, utilizados na pesca do
Siri realizada na foz do Rio Doce. Bote e remo feitos de madeira, utilizados
na pesca no Rio Doce. Fotos: Simone Raquel Batista Ferreira. 26.10.2013 e
15.03.2014.
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Para
a pesca, eram utilizados: o Jequi, o Samburá, a Muzanza (cerca na vazão do peixe), feitos de cipó (Samburá) e de bambu
amarrado com cipó (Jequi e Muzanza).
Em
tempos passados, a pesca era realizada no Rio Doce e nas diversas lagoas que
ocupavam os terrenos arenosos de sua planície de inundação e por ele eram
alimentadas nos períodos das cheias periódicas, como: Cacimba, Parda, Dourada,
Redonda, Terra Alta, Sete Lagoas, Lagoa das Poças. Junto com o Rio Doce, essas
lagoas forneciam uma diversidade de peixes: o Curumatá, o Acará, a Piaba, a Traíra, o Morobá, o Tucunaré, a Curvina, o Jundiá, o Cumbaca, o Sarapô, o Cascudo, o Peixe Agulha, o Camboatá ou Cambuti, o Sairú, o Robalo (só no rio), o Dourado
(só no rio), o Camarão Pitú (só no
rio), o Jacaré Miúdo (só nas lagoas),
a Lagosta (no rio), o Siri (no rio), o Goiamun (no manguezal). Dentre as caças, as lagoas eram lugar da Capivara e da Paca, enquanto os ambientes mais secos, na mata, eram apropriados
para encontrar o Preá, o Cágado, o Jaboti, o Tatu, dentre
outros animais que se distribuíam pelas matas, sobretudo nas margens do Rio
Doce.
As
lagoas eram localidades escolhidas para se estabelecer moradia e um grande
número de famílias vivia ao redor de uma lagoa. Muitas vezes, os peixes
pescados no Rio Doce – como o Robalo
- eram trocados pela farinha produzida pelos moradores próximos das lagoas.
Cada família tinha um Quitungo ou Farinheira, estrutura produtiva
construída com peças esculpidas na madeira – Prensa, Cocho, Roda de ralar – e tecidas com fibras e
cipós – Tapiti.
- Morava nessa Lagoa, finado
Antenor, finado Honorato, Seu Miguel, moravam na região das lagoas, se
demarcarem isso aqui como terra indígena vai tudo, da foz do Rio Doce até lá,
vai embora... Se andar o dia todinho, não chega no final da terra. (Gerônimo)
Atualmente,
tendo em vista o grande assoreamento do Rio Doce e também a apropriação privada
de extensas porções de terras onde se encontram as lagoas, que foram desmatadas
e transformadas em longas pastagens de gado e/ou em terrenos de exploração e
transporte de petróleo e gás, não há mais moradias das comunidades tradicionais
locais ao redor das lagoas e a pesca é realizada, predominantemente, no mar.
Assim como seus ancestrais, essas
comunidades tradicionais vêm passando por um sofrido processo de expropriação
de seus territórios e condições de vida, provocado pelos projetos
desenvolvimentistas implantados nessa região. Opondo-se à matriz de
racionalidade dos povos e comunidades tradicionais, outros processos
territoriais se constituem, dirigidos por interesses econômicos e políticos
hegemônicos que mercantilizam a natureza com o objetivo de gerar a acumulação
desigual de riquezas. Os
projetos desenvolvimentistas capitalistas permanecem invadindo esses
territórios tradicionais, se apropriando de sua natureza e solapando sua organização
social e econômica.
Em determinados momentos
históricos, essas formas de apropriação passaram a sofrer o impacto de outras
formas de propriedade, como a estatal ou a privada, e estar ameaçadas de
desaparecimento. Em certos casos, a ameaça externa tem sido um elemento
essencial na afirmação dos direitos comunitários e na reconstrução da tradição
(DIEGUES, 1998 p.99).
Nesse
sentido, embora o momento histórico Moderno Colonial tenha oficialmente
cessado, no atual padrão de poder mundial ainda permanecem práticas de colonialidade que teimam em manter a
dominação e expropriação territorial dos povos e comunidades tradicionais
(QUIJANO, 2005). No entanto, mesmo
que muitos desses sistemas tenham se desestruturado frente à expansão
capitalista, existem exemplos recentes que mostram a capacidade dos comunitários não só em reagir, mas
também de se reorganizar, recriando seus modos de vida e territórios de uso comum (Diegues, 1998). Frente a esse
processo intensificado na era do capitalismo financeiro global, povos e
comunidades tradicionais de diversas localidades no mundo vêm se organizando em
movimentos sociais para terem reconhecidos seus direitos: aos territórios que
tradicionalmente ocupam; à identidade; à autonomia política; à sua própria
visão de desenvolvimento. São movimentos originados numa vinculação cultural e
ecológica a um território. Para eles, o direito a existir é uma questão
cultural, política e ecológica (ESCOBAR, 2005).
4. HISTÓRICO DE CONFLITOS
4.1.
ALDEAMENTOS E EXTERMÍNIO INDÍGENA: O DISCURSO DOS “VAZIOS DEMOGRÁFICOS”
Segundo Caio Prado Jr. (1979), nas regiões
costeiras estabeleceram-se grupos humanos que desenvolveram culturas
caracterizadas por modos de vida específicos, de grande dependência dos
recursos naturais renováveis. Inicialmente, esses grupos foram marginalizados
pelo modelo econômico do período colonial brasileiro, baseado nas monoculturas
em larga escala destinadas à exportação, e essa marginalização se perpetua,
pautada em uma ideologia de progresso e desenvolvimento que gera frequentes
dificuldades para as comunidades tradicionais, que são expulsas de seus
territórios, em detrimento da expansão da grande propriedade privada e dos
grandes projetos.
Em se
tratando dos povos originários, o movimento colonizador trouxe consigo pestes
epidêmicas que dizimaram povos inteiros e ainda gerou a redução sucessiva dos
territórios indígenas e, no limite, até mesmo a completa expulsão daqueles que
conseguiam escapar das guerras, do cativeiro e das epidemias. Em alguns casos,
a frente colonizadora alcançou territórios parcamente habitados ou até mesmo
desabitados, porque geralmente, antes dos colonos chegavam as doenças. É assim
que o Brasil recém-proclamado chega até esses índios. Tribos inteiras dizimadas
pela peste, conhecida como epidemia da Bexiga (varíola).
O aculturamento foi outro fator que
contribuiu para o extermínio da nação indígena durante o Primeiro Reinado no
Brasil. O trabalho cultural merecia atenção especial: a substituição dos
costumes indígenas pelos cultos católicos, o ensino massificante do português
escrito e falado, e a introdução de novas atividades produtivas, sobretudo nas
lavouras.
Este também foi o caso do vale do Rio Doce.
A história da colonização dessa sub-região do território brasileiro que
definitivamente entrou na rota da expansão da sociedade luso-brasileira em
1800, exemplifica os percalços, problemas, contradições e conflitos das
relações entre a sociedade dominante em expansão e os indígenas no processo de
desenvolvimento brasileiro.
No século XIX, o
povoamento da Província do Espírito Santo concentrava-se ao sul do rio Doce,
enquanto o norte permanecia ocupado por raros núcleos urbanos e algumas
fazendas escravistas, em meio a grandes florestas ainda habitadas pelos povos
indígenas que resistiram à invasão de seus territórios até o início do século
XX. Além da forte resistência indígena, tal contexto fora favorecido também
pelas investidas em busca de riquezas minerais a partir do século XVI, fator
que incentivou a migração dos colonizadores aos sertões e o relativo abandono das terras litorâneas. E a Coroa
Portuguesa, ainda que quisesse efetivar sua ocupação sobre o norte do Espírito
Santo, por outro lado se preocupava em dificultar o contrabando do ouro saído
dos sertões das Minas Gerais,
sobretudo nos séculos XVII e XVIII, proibindo a construção de estradas e
mantendo enorme atenção sobre a artéria natural representada pelo rio Doce:
A
estratégia da Coroa foi isolar as zonas produtoras de ouro para evitar o
contrabando e dificultar a invasão estrangeira. [...] desde 1701, estabeleceu
severas restrições de acesso às regiões mineradoras, sobretudo pelo rio Doce e
seus afluentes. [...] Delimitou-se, assim, uma parcela do território português
como “Áreas Proibidas”. (ESPÍNDOLA, 2008, p.71)
No início do
século XIX, as “áreas proibidas” eram conhecidas como Sertão do Rio Doce e compreendiam o “espaço coberto pela floresta
tropical, que se estendia entre as áreas povoadas da região central de Minas
Gerais e o litoral do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Bahia” (idem, p.70).
Mesmo proibidas pela Coroa, estas áreas já vinham sendo cortadas por caminhos
ainda no século XVIII e durante todo o século XIX, e continuavam a ser
cobiçadas como fonte de riqueza: acreditava-se que as florestas do Sertão do Rio Doce escondiam riquezas
minerais, que passavam a ser associadas a outras, como madeiras nobres para a construção
civil e a marcenaria, plantas medicinais, produtos para tinturaria e solos
férteis propícios à agricultura de exportação. No entanto, as dificuldades de
circulação dentro da floresta e a resistência dos indígenas Botocudos
constituíam concretos obstáculos a esta exploração.
Em virtude de
sua forte resistência à expropriação territorial, os Botocudos tornaram-se alvo
das investidas coloniais de extermínio. Afinal, na continuidade da corrida em
busca dos metais preciosos que já apresentavam sua exaustão nas Minas Gerais,
acreditava-se que o Sertão do Rio Doce
escondia suas riquezas minerais sob a floresta, que portanto deveria ser
penetrada e suprimida através das queimadas e da fixação de uma população por
meio da agricultura. Como justificativa moral para este extermínio,
construiu-se a imagem dos Botocudos como “ferozes” e “antropófagos”, e portanto
excluídos da condição humana. No ano de 1808, imediatamente após sua chegada e
estabelecimento no Rio de Janeiro, Dom João VI institucionalizaria o extermínio
dos Botocudos como política colonial, por meio da Carta Régia de 13 de maio de 1808:
[...]
deveis considerar como principiada contra estes índios antropófagos uma guerra
ofensiva que continuareis sempre em todos os anos nas estações secas e que não
terá fim, senão quando tiverdes a felicidade de vos senhorar de suas habitações
e de os capacitar da superioridade das minhas reais armas de maneira tal que
movidos do justo terror das mesmas, peçam a paz e sujeitando-se ao doce jugo
das Leis e prometendo viver em sociedade, possam vir a ser vassalos úteis, como
já o são as imensas variedades de índios que nestes meus vastos Estados do
Brasil se acham aldeados [...]. Que sejam considerados como prisioneiros de
guerra todos os índios Botocudos que se tomarem com as armas na mão em qualquer
ataque; e que sejam entregues para o serviço do respectivo Comandante por dez
anos, e todo o mais tempo em que durar sua ferocidade, podendo ele empregá-los
em seu serviço particular durante este tempo e conservá-los com a devida
segurança, mesmo em ferros, enquanto não derem provas do abandono de sua
atrocidade e antropofagia [...]. (ALVES, 2008, p. 4)
Através de uma guerra ofensiva, pretendia-se
transformar os bravos Botocudos em “vassalos
úteis” à ordem real e colonial, como já vinha acontecendo através dos
aldeamentos constituídos pelas missões jesuíticas, que tinham como objetivo
domesticar os índios bravos e livres dos
sertões. Desta maneira, construía-se
a classificação dos diversos grupos indígenas, que se tornavam mansos e domesticados quando aldeados e inseridos na ordem colonial, ou tapuias, insurgentes e selvagens,
quando conseguiam manter sua resistência à expropriação territorial.
Se a Carta Régia de D. João VI determinava
uma guerra ofensiva aos Botocudos em
função de sua forte resistência ao processo de expropriação territorial, com a
separação de Portugal em 1822, a política indigenista irá idealizar sua pacificação e incorporação à sociedade nacional, que foi levada a
cabo simultaneamente pelas províncias do Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais.
Esta política de pacificação foi formalizada pelo Regulamento Interino para o Aldeamento e a Civilização dos Índios
Botocudos do Rio Doce, da província do Espírito Santo, de 1824, que
estabeleceu a Diretoria do Rio Doce e
criou 3 aldeamentos nas margens do rio, encarregados de atrair e “civilizar” os
indígenas da região, transformando-lhes em colonos
das atividades de desenvolvimento, como a agricultura, a navegação e a guarda
militar (MOREL, 2002). Apropriando-se do
território desocupado a partir do deslocamento indígena, os aldeamentos
propiciaram, também, a distribuição de sesmarias a particulares:
Às três
aldeias a serem formadas, garantia-se uma porção territorial de uma légua de
frente (nas margens do rio) e três de fundo. Deveriam ser medidas e demarcadas
judicialmente e poderiam ser escolhidas pelo diretor em qualquer lugar,
respeitando as sesmarias já concedidas. Ao mesmo tempo, o Governo Imperial
incentivava a distribuição de sesmarias a particulares, autorização exclusiva
para a região do rio Doce [...]. A
apropriação das terras indígenas ou a “colonização dos sertões” [...] era
escopo fundamental da legislação dirigida aos Botocudos [...]. (MARINATO, 2008,
p.50)
Algumas famílias
indígenas passariam a conviver com os colonos e a formar pequenas aldeias às
margens das lagoas ou próximas aos quartéis; outras seriam incorporadas aos
aldeamentos criados pela Diretoria do Rio Doce. Dentre eles, destaca-se para
nossa análise o Aldeamento de São Pedro
de Alcântara, cuja localização nos pareceu muito próxima à da atual Vila de
Regência (e/ou áreas ao redor):
O
primeiro aldeamento constituído pela Diretoria do Rio Doce em 1824 foi o de São Pedro de Alcântara, localizado na
margem direita do rio, próximo à sua foz, e reunia 47 Botocudos [grifo
nosso]. (Idem, ibidem, p.53)
No entanto, a
maior parte dos Botocudos recusava-se à sedentarização nos aldeamentos e manteve
focos resistência ao processo de expansão colonial em toda a província,
espalhando-se pelos sertões, promovendo assaltos, correrias e ataques às
fazendas e povoados. Esta resistência se fazia como enfrentamento à violência
que sofriam, como a exploração para trabalhos compulsórios e massacres
praticados por fazendeiros, chacinas militares e infestação de doenças.
Buscando demonstrar sua insatisfação, os Botocudos espalharam-se por todo o
território do Espírito Santo e marcharam até a capital da Província em outubro
de 1824. Um grupo vindo do rio Doce foi alojado na Ilha do Príncipe e aí
permaneceu, sustentado e vigiado pelo Governo. Outro grupo, vindo de
Itapemirim, foi recebido a bala e um grande número morreu. A partir daí, o
grupo vindo do rio Doce tornou-se prisioneiro na Ilha do Príncipe e, por quatro
meses, a situação foi bastante tensa, até resultar no acordo estabelecido entre
o Governo e os Botocudos:
Somente
em 31 de janeiro de 1825 esvaziou-se a tensão em Vitória: as autoridades
capixabas conseguiram negociar uma solução com as tribos que ainda se
encontravam na ilha do Príncipe. Os índios receberam consideráveis provisões de
milho e mandioca e se retiraram para o rio Doce. O retorno desses índios que
intencionavam assediar a capital da província marcou o início do declínio dos
guerreiros Botocudo [...]. (MOREL, 2002, p.103)
O século XIX
conheceu, portanto, numerosas chacinas contra os tapuias Botocudos, que ora eram dizimados, ora inseridos na
sociedade colonial como mão-de-obra suplementar das fazendas escravistas:
Progressivamente,
portanto, Puri e Botocudo que sobreviviam ao contato, passaram a engrossar a
categoria genérica de ‘índios’ e ‘caboclos’ da região [...] e que [...] estavam
sendo incorporados ao sistema produtivo local. [...] Quando os índios eram
empregados na fazenda, [...] eram tratados como se fossem parte da propriedade
dos fazendeiros e recebiam como recompensa aos trabalhos realizados geralmente
a cachaça, alguma comida e objetos de menor valor. [...] Certo número de Botocudos
começou a fazer parte da sociedade em expansão. [...] Outra parte, contudo,
permaneceu nos aldeamentos e outros tantos morriam de fome, doenças, chacinas e
guerras intertribais nas matas. (MOREIRA, 2001: 105-110).
Foram, no mínimo, cento e quarenta anos de
história de contato e conflito nas regiões do rio Doce e adjacências, e somente
em 1940, o “problema indígena” foi considerado superado naquelas regiões, então
sob controle do estado do Espírito Santo. Na ocasião, entendeu-se que o
problema estava superado porque os vestígios da presença indígena naquele
território haviam supostamente desaparecido.
O caráter seminômade e arredio dos indígenas
dos sertões, as frequentes fugas para
as regiões menos acessíveis à onda colonizadora, a política indigenista oficial
de concentração da população indígena em aldeias controladas pelo Estado
contribuíram, em grande medida, para forjar a ideia de que partes do Brasil
eram ou até mesmo sempre foram “sertões sem gente”. Para que tal fato se
findasse, a migração italiana, polonesa e germânica, entre outras, teve como
objetivo primordial a colonização e o povoamento do grande “vazio demográfico”
que foi considerado esse território. Como num passe de mágica, as exuberantes
florestas habitadas pelos indígenas tornaram-se, com a chegada do colono
europeu, florestas vazias de gente, graças ao conceito imagético de “vazios
demográficos”.
Os ribeirinhos da foz do rio Doce relembram
localidades que eram moradias indígenas, como a Lagoa das Poças:
Tem a Lagoa Dourada, tem as Cacimbas,
entendeu? Tem a Lagoa das Poças, onde vivia os índios, Lagoa das Poças lá
dentro [...] lá nessa Lagoa das Poças que vivia os índios, mesmo, que era uma
matona, você olhava assim, era aquele matão, dava até medo de chegar perto
dela. Lá que vivia os índios. Lá tinha o caminho das poças, era um caminho
grande que saía lá na praia que os índios lá matava tartaruga, comia né, trazia
pra casa e vivia daquele jeito lá, com aquela rocinha de mandioca e vivia lá
sem ninguém perturbar eles lá. [...] Meu avô Xandoca contava que os índios
vinham das poças batendo tambor, para espantar os brancos da beira da praia.
(Gerônimo)
Nesta localidade, com a chegada da ocupação
não indígena, as casas teriam sido derrubadas e esses grupos dali originários
teriam sido forçosamente dispersados pelo território:
Minha avó era índia, e eles eram
sempre perseguidos pelo branco. Minha mãe teve que abandonar a terra, teve que
fugir daqui. É por isso que hoje eu estou aqui, resistindo na terra que era
nossa. Isso tudo era nosso. (Edvaldo)
Ainda assim, apesar das pressões e da
expropriação sofridas pelos povos originários, somadas à ideologia dos “vazios
demográficos”, acredita-se que boa parte da população de Regência, na foz do
rio Doce, ainda seja descendente dos Botocudos sobreviventes (BICALHO, 2011).
4.2. A
DISPONIBILIZAÇÃO DAS TERRAS PARA A PRODUÇÃO DO CARVÃO E DA CELULOSE
Sob a ideologia dos “vazios demográficos” e a ótica
da “vocação madeireira”, a existência da floresta tropical já era condição para
sua própria retirada. Na década de 1950, a floresta dos sertões do Rio Doce encontrava-se explorada, principalmente, pela
produção do carvão vegetal destinado às siderurgias e lenha para fornos e trens
movidos a vapor. Esta situação fora iniciada no início do século XX, quando as
primeiras ferrovias entre as zonas litorâneas e os sertões do Rio Doce começariam a ser construídas. Dentre elas, a
Estrada de Ferro Vitória-Minas teve papel central no devassamento da floresta:
iniciada em 1903 (Vitória), atingiu o rio Doce em 1905 (Colatina) e Itabira em
1944, movimentada pelo transporte de café e madeira. A partir de 1945, como
propriedade da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), passou a servir ao transporte
de minério de ferro em grande escala, favorecendo a implantação de um parque
siderúrgico na região. A produção do carvão vegetal para siderurgia provocou a
ocupação e devastação da floresta no médio vale do rio Doce de forma muito mais
intensa do que a exploração destinada às serrarias.
O incremento da
indústria automobilística e a priorização do transporte rodoviário após a
Segunda Guerra Mundial (1939-1945) alteraram ainda mais a forma da exploração
econômica desta região. A construção das estradas de grande porte - com
destaque, a BR-101 e a ponte sobre o rio Doce na altura da cidade de Linhares
em 1954 – e o crescente uso de caminhões passaram a substituir o transporte
hidroviário e a abrir ainda mais a região aos projetos desenvolvimentistas.
Nos
anos de 1940, a implantação da empresa Companhia Ferro e Aço de Vitória (COFAVI),
que recebeu do Governo Estadual 10.000 hectares de terras pertencentes aos
indígenas Tupiniquins, foi um marco
do início da intensificação do processo de expropriação territorial dessas
comunidades e da destruição das matas nativas. Os Tupiniquins continuaram ocupando os cerca de 30 mil hectares
restantes até meados da década de 1960, ou seja, até a implantação da Aracruz
Florestal S/A em 1967, que recebeu do Governo Estadual os 10 mil hectares anteriormente
explorados pela COFAVI para o início do plantio de eucalipto, inaugurando um
processo intenso e acelerado de desmatamento e de ocupação das terras
indígenas, que atingiu seu ponto crítico com a implantação do complexo
agroindustrial Aracruz Celulose S/A em 1972 (ANAÍ, 2010).
A
substituição das florestas nativas por monocultivos de eucalipto provocou um
conjunto de impactos ambientais e sociais junto aos Tupiniquins e Guaranis. A
perda da diversidade biológica representou, para esses povos, a escassez do
alimento (caça, pesca, coleta), dos medicamentos e de recursos antes utilizados
para a construção das moradias, instrumentos de trabalho e estruturas
produtivas. Somado a isso, o território indígena também passou a sofrer o
esgotamento dos recursos hídricos – oriundo do elevado consumo de água efetivado
pelos monocultivos e também pelas fábricas de celulose – e a contaminação das
terras e das águas – oriunda dos agrotóxicos utilizados nos plantios. Esses
processos desestruturam profundamente o modo de vida Tupiniquim e Guarani,
antes sustentado pela relação equilibrada com o ambiente (CIMI, 1996).
Para
alimentar as caldeiras onde são “cozidos” os cavacos de eucalipto, a empresa
Aracruz Celulose (atual Fibria) monopolizou a bacia hidrográfica do rio Riacho
e transformou-a numa obra de engenharia hidráulica – invertendo, inclusive, o
fluxo de alguns córregos. Essas alterações provocaram um enorme dano junto à
comunidade de pescadores artesanais de Barra do Riacho, situada na foz desse
rio (que se encontra ao sul do rio Doce e da Vila de Regência). Em decorrência
da baixa vazão do rio Riacho, aumentou o processo de sedimentação marinha junto
à sua foz e esses pescadores passaram a conviver com o assoreamento e
fechamento da barra do rio, tendo que exigir da Prefeitura Municipal de Aracruz
dragagens periódicas para reabrir a passagem e assim, poderem sair com suas
embarcações ao mar (VIEIRA, 2012).
Em
1991, a empresa Aracruz Celulose passaria a usufruir, também, das águas do rio
Doce para sua produção, reativando um antigo canal de drenagem construído pelo Departamento Nacional de Obras de Saneamento
(DNOS) para a transposição de águas da bacia do rio Doce para a bacia do
rio Riacho. Denominado Caboclo Bernardo
- em alusão a um personagem heróico da história de Regência, que em 1887 teria
salvo cerca de 120 pessoas de um naufrágio na foz do rio Doce - este canal faz
chegar água do rio Doce às caldeiras da empresa e uma pequena parte é
encaminhada para o rio Comboios e desse, para a foz do rio Riacho, no intuito
de que essa foz não secasse por completo.
Ao
passar pelo rio Comboios, as águas do rio Doce trouxeram a poluição e a
diminuição dos peixes, fato que prejudicou a comunidade Tupiniquim da Terra
Indígena de Comboios, por onde o rio passa. Ademais, o nível do rio Comboios
passou a ser controlado pela empresa através de um sistema de comportas que não
respeita o movimento natural de cheias e vazantes, que era aproveitado pelos
Tupiniquins para os cultivos nas várzeas. Os ribeirinhos da foz do rio Doce
também afirmam que o Canal Caboclo Bernardo lhes trouxe prejuízos:
Hoje
acontece de você ir r não trazer peixe. Mas isso só veio causar esse impacto
depois que a Aracruz Celulose começou a tirar nossa agua do rio Doce e carregar
lá para a Aracruz Celulose. (Kátia)
4.3.
A DRENAGEM DAS ÁREAS ALAGADIÇAS E A DISPONIBILIZAÇÃO DAS TERRAS PARA AS
FAZENDAS DE GADO
As obras de drenagem em áreas alagadiças e
pantanosas constituíram-se como iniciativas governamentais no Brasil a partir
do final do século XIX e traziam como argumento central o saneamento e a
restauração da salubridade nos territórios afetados e/ou propícios á
proliferação de doenças endêmicas como a malária, inicialmente no Rio de
Janeiro. A primeira iniciativa nesse sentido foi a criação da Comissão Estadual de Saneamento, em
1894. Extinta em 1902, essa comissão foi substituída pela Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, criada em 1910 com o
objetivo principal de combater a malária por meio de obras de engenharia que
eliminassem seus principais focos, os pântanos. Posteriormente, os trabalhos dessa
comissão tiveram continuidade pela Diretoria
de Saneamento da Baixada Fluminense, criada em 1930 (BVAMBIENTE,
2014):
O objetivo das Comissões de saneamento
estava ligado ao aproveitamento das áreas que seriam saneadas, para uso de
atividades econômicas, como a agricultura, transporte de mercadorias e também,
como serviço de higiene pública. O povoamento das terras saneadas era crucial
para a agricultura, pois garantiria força de trabalho a essa atividade.
Em 1940, essas
atribuições foram transferidas ao Departamento
Nacional de Obras de Saneamento (DNOS), criado por Getúlio Vargas e com
abrangência em todo o território brasileiro. Com o DNOS, nasceu
a idéia de se valorizar o solo urbano e
rural mediante a melhoria de suas condições de salubridade e de uso,
através de obras de infra-estrutura arquitetadas para a contenção de enchentes,
canalização de córregos e drenagens (CEOPS, 2014). Baseado nesse pensamento produtivista de propor
uma “melhoria” das áreas de brejos e alagados, o DNOS abriu inúmeros canais de
drenagem para secar a região da planície de inundação do rio Doce, conhecida
como o pantanal capixaba. Embora as
tentativas de drenagem da planície sedimentar costeira do Rio Doce datem do
início do século XX, com a transformação dessa paisagem pela criação de búfalos
e cultivos de mandioca nas fazendas da região (ZUNTI, 1982), a partir da
atuação do DNOS nos anos 1950, essas alterações tornaram-se mais intensas:
Desde o início do
século passado houve tentativas de drenagem desta área para aproveitamento
agrícola através das obras de engenharia. A princípio, somente as áreas mais
elevadas eram ocupadas, a partir dos anos 50 o DNOS (Departamento Nacional de
Obras de Saneamento) realizou estudos e obras de drenagem para viabilizar a
exploração da área com atividades agropecuárias. Tais estudos permitiram a
construção de vários quilômetros de canais de drenagem e de estradas para a
implantação de grandes fazendas voltadas também para a criação de gado, o que
viabilizou a exploração de uma imensa baixada inundada periodicamente por
enchentes do rio Doce. (CBH Rio Doce, 2009)
Assim, as áreas antes destinadas às cheias
periódicas do rio Doce e, portanto, à manutenção de seu regime hídrico,
passaram a ser disponibilizadas ao uso agropecuário. “Este processo alterou
significativamente a hidrografia da região, causando o desaparecimento quase
total de algumas lagoas na foz do rio” (Idem, ibidem). Esse processo soma-se ao
processo maior de degradação do rio Doce, decorrente dos desmatamentos
provocados na área de sua bacia hidrográfica, cujos resultados podem ser
atualmente percebidos por seu alto grau de assoreamento:
O processo de
degradação que vem ocorrendo ao longo do rio Doce, tem provocado o assoreamento
do mesmo, diminuindo sua profundidade, e isso também pode ser observado na sua
foz, como o surgimento de novas ilhas, que por sua vez são ocupadas e
utilizadas como áreas para implantação de atividades agrícolas. (CBH Rio Doce,
2009)
A drenagem da planície de inundação do rio
Doce e a disponibilização dessas terras ao uso agropecuário conjugaram-se à
política agrária de favorecimento da concentração fundiária e esse contexto
promoveu a formação de grandes fazendas de gado nesta região.
Segundo o Censo Agropecuário do IBGE de 2006, a pecuária é a principal
atividade econômica rural no município de Linhares e está presente em 1.103
estabelecimentos (18%), onde ocupa 135.285 hectares (35% das terras do
município). Em algumas áreas, a pecuária vem sendo substituída pelos
monocultivos de eucalipto (erroneamente denominados “florestas plantadas”)[2],
que atualmente constituem a segunda maior atividade rural do município,
presente em 90 estabelecimentos (1,4%) onde ocupam 66.295 hectares (17% das
terras do município).


Tabela 6: Atividades econômicas rurais nos municípios de São Mateus,
Linhares e Aracruz, estado do Espírito Santo (em número de estabelecimentos e
área). Fonte: Censo Agropecuário IBGE (2006).
Na região da foz do rio Doce, também há
o predomínio da pastagem com pecuária extensiva, que ocupa 46% da área e é
característica das grandes propriedades, que ocupam 83% da área, enquanto a agricultura
de subsistência é utilizada em menor escala, nas pequenas propriedades e na
Terra Indígena de Comboios (PDIS, 2002).
O trabalho de Demuner (2012) apresenta os significativos distúrbios decorrentes
dessas transformações da paisagem no Baixo Rio Doce, destacando a área ocupada
por pastagens:
Mapa 10: Classes de uso do solo na Zona Ripária do Rio Doce, no ano 2000. Fonte:
Demuner (2012).
Mapa 11: Estrutura da Paisagem na Zona Ripária do rio Doce. Fonte: Demuner
(2012).
4.4. PETRÓLEO E GÁS
A presença da atividade
petrolífera no município de Linhares data dos anos 1970, com o início das
atividades de prospecção na porção terrestre da Bacia Sedimentar do Espírito
Santo realizadas pela Petróleo Brasileiro S.A. – Petrobras. Até meados dos anos
1970, a presença da atividade petrolífera no município restringia-se a cerca de
uma dezena de poços perfurados para a prospecção de jazidas. No início dos anos
1980, as primeiras unidades produtivas são instaladas no pioneiro campo
produtor de Lagoa Parda. Os volumes das reservas descobertas na margem sul da
foz do rio Doce condicionaram a implantação de infraestruturas de produção,
coleta e tratamento primário da produção de óleo e de tratamento da produção de
gás natural também operado pela Petrobras. Essas implantações representam a
gênese do espaço energético no litoral do município de Linhares.
Nos anos 1980 e 90, o incremento das atividades
de exploração e produção repercutiu no aumento do número de campos de produção
instalados planície costeira do município de Linhares. No fim dos anos 1980 11
campos de produção estavam em atividade. No fim dos anos 1990, havia 15 campos
de produção e 4 estações coletoras e de tratamento primário da produção de
óleo, totalizando mais de 120 km² de superfície ocupada. Com o incremento das
atividades de prospecção na Bacia Sedimentar do Espírito Santo a partir dos
anos 2000 e o consequente aumento dos volumes das reservas provadas de
hidrocarbonetos, sobretudo com as descobertas de grandes jazidas de gás natural
na plataforma continental viabilizando novos investimentos da Petrobras, o
espaço energético litorâneo de Linhares, além dos campos produtores, é
incrementado com instalações de processamento de gás natural cujos volumes
produzidos atendem às demandas dos mercados consumidores regionais e nacional.
Associadas ao tratamento do gás natural, outras atividades são atraídas para a
costa do município devido a vinculações técnicas, compondo um espaço energético
diversificado (GONÇALVES, 2011).
Ainda no início dos anos 1990, Ab'Sáber
assinalava os processos poluidores associados às atividades de produção de óleo
e gás natural nas regiões costeiras do Brasil. O autor relata a ocorrência de
vazamentos de óleo e gás e de incêndios de grandes proporções e destaca que os
riscos maiores estão associados às refinarias, depósitos e dutos instalados nas
proximidades das aglomerações populacionais.
Com base na dissertação de Gonçalves
(2011), o cenário apresenta uma realidade de dados pouco debatido pelas
empresas, observa-se uma série de danos, prejuízos e restrições na convivência,
coexistência com o espaço geográfico habitado. Os impactos verificados na
região são: modificação do solo (aterros), contaminação do solo (cavalos
mecânicos), contaminação das águas, do ar, os desmatamentos, as drenagens, a
intensificação de caminhões, as empreiteiras, a mobilidade (dezenas de tubos
atravessam a região), entre muitos outros.
Ao avaliar o contexto atual através do Macrodiagnóstico da Zona Costeira e Marinha, EGLER (2008) aponta
que o risco tecnológico na zona costeira brasileira está associado à
concentração espacial do "equipamento produtivo e energético em zonas e
centros industriais":
Segundo
o diagnóstico, a ssociação de centrais energéticas com terminais especializados
e complexos industriais aumenta sobremaneira o risco de acidentes, bem como
favorece a exposição em longo prazo da população a substâncias tóxicas na água
e no ar. (EGLER, 2008, apud GONÇALVES,
2011, p.42).
Gonçalves
(2011) ressalta que o conjunto de
atividades energéticas atuantes no litoral de Linhares divide suas em
atividades extrativas de petróleo e gás natural, atividades de processamento de
gás natural, atividades de estocagem e escoamento associadas, e atividades de
geração de energia elétrica de origem térmica. O encadeamento das atividades
caracteriza-se por uma complexa organização técnica e espacial, sobretudo em razão
da atividade petrolífera.
Devido à disponibilidade local de gás natural
tratado, o espaço energético litorâneo de Linhares tem atraído atividades
associadas utilizadores de gás natural como matéria-prima de produção. A
atividade de geração de energia elétrica de alta tensão de origem térmica à
base de gás natural figura como atividade pioneira nesse processo de vinculação
técnica que ocorre no espaço litorâneo do município. O grande volume de
produção de gás natural proveniente do complexo de tratamento instalado na
costa do município tem viabilizado a implantação de projetos de utilização do
gás como combustível de usinas termoelétricas, cuja produção se direciona para
o atendimento das demandas atuais e futuras de suprimento de energia elétrica dos
mercados regional e nacional (GONÇALVES, 2011).
As atividades de tratamento de gás natural
instaladas no município de Linhares realizam o processamento de toda a produção
de gás natural proveniente dos campos terrestres e marítimos localizados na
Bacia Sedimentar do Espírito Santo, que podem chegar a 18 milhões de m³ por
dia, exploração realizada exclusivamente pela Petrobras. O complexo de
exploração é constituído por dedes de gasodutos terrestres e marítimos que
fazem a ligação dos campos de produção ao complexo de processamento, formado
pela Unidade de Tratamento de Gás de
Cacimbas – UTGC e pela Unidade de
Processamento de Gás Natural de Lagoa Parda – UPGN Lagoa Parda (Idem,
ibidem).
A Unidade de Processamento de Gás Natural –
UPGN de Lagoa Parda é uma instalação de tratamento de gás secundária e
associada à Unidade de Cacimbas.
Situada na margem sul do rio Doce, opera desde o início da década de 1980. Ao
comparar as unidades da região, Gonçalves (2011) afirma:
Sua planta ocupa atualmente uma superfície pequena,
se comparada à UTGC. São 4,5 hectares, ocupados por uma UPGN e uma DPP. Devido ao fato de a Unidade de Tratamento de
Cacimbas representar um ponto nodal da produção de gás natural da Bacia do
Espírito Santo, essa zona se configura como área de convergência e de
dispersão de redes de gasodutos. Para a zona, convergem
redes de gasodutos que escoam o gás natural proveniente dos campos de produção
terrestres e marítimos. Da Unidade de Cacimbas, o gás
tratado segue por
dois ramais principais para os
consumidores finais: um
para o sul
até Vitória e,
posteriormente, para o estado do
Rio de Janeiro, interligando-se à malha
de gasodutos da Região Sudeste; e outro para norte, até o recôncavo baiano,
ligando-se à malha de gasodutos da Região Nordeste. (p. 104)
A
exploração, armazenamento e transporte do petróleo e gás na região da foz do
rio Doce, que culminaram na criação da Unidade
de Processamento de Gás Natural – UPGN de Lagoa Parda, efetivaram a
expropriação de territórios de uso tradicional, como pode ser verificado junto
à Comunidade de Areal - cuja área
atualmente ocupada pelas famílias é “rasgada” por tubulações
de gás – e também junto a um grupo familiar situado na margem direita do rio
Preto - que teve parte de sua terra apropriada pela UPGN de Lagoa Parda, cavalinhos mecânicos de exploração e dutos, e
em troca cada família recebe R$ 200,00 (duzentos reais) mensais.

Mapa 12: – Zona de
processamento de gás e produção termoelétrica. Fonte: ORTOFOTOMOSIACO IEMA
2007/2008. Elaborado por: Gonçalves (2011).
Além disso, essas
atividades apresentam uma gama potencial de riscos e perigos ao ambiente e às
comunidades locais, como pode ser verificado no Quadro a seguir.
Quadro 1: Os principais poluentes, fontes de perigo
e os riscos. Fonte: Gonçalves (2011).
No que tange à questões da
exploração na parte submersa, Bicalho (2012), ao estudar os impactos das
atividades relacionados à exploração de petróleo e gás na comunidade de pesca artesanal de Regência
Augusta, afirma que os estudos de pesquisa sísmica afastam o pescado da costa,
baixando substancialmente a quantidade e também causando danos à saúde da biota:

Quadro 2: Efeitos da
sísmica sobre a biota marinha. Fonte: Bicalho (2012).

Mapa 13: Área de influência da atividade
petrolífera nos territórios marinhos. Fonte: RIMA (2010), citado por Bicalho (2012).
Os ribeirinhos da foz do rio Doce atestam
esses impactos, ao afirmar que a pesca está precária devido às bombas, barcaças
(celulose) e ao fogo no meio do mar (plataformas de exploração de petróleo).
4.5.
MINÉRIO E INFRAESTRUTURA PORTUÁRIA
O momento atual traz, para todo o estado do
Espírito Santo, uma nova fase de implantação de grandes projetos
desenvolvimentistas, com destaque à ampliação da infraestrutura portuária voltada
à exploração e transporte do petróleo e gás, de minérios, entre outros
produtos. Essa ampliação portuária prevê a construção de 30 portos em todo
litoral capixaba, que irão incidir sobre territórios de uso tradicional de
comunidades de pescadores artesanais, quilombolas e indígenas, dentre outros.
Um desses conflitos em curso refere-se aos
territórios das comunidades tradicionais da foz do rio Doce, que se tornaram
alvo do projeto de construção de uma infraestrutura portuária conectada à
exploração mineral localizada no estado de Minas Gerais, da empresa Manabi S.A. Segundo o Relatório Técnico
elaborado pelo Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais da Universidade Federal
de Minas Gerais (GESTA/UFMG):
O empreendimento Manabi é formado
por um conjunto de intervenções de grande porte: lavras, unidade de
beneficiamento, estruturas acessórias, mineroduto e porto. O projeto foi
desenvolvido contemplando a produção de minério de ferro, incluindo pesquisa,
exploração, lavra e processamento no município de Morro do Pilar, além da
logística do transporte por via de bombeamento da polpa de minério em sistema
de dutos que se estendem de Morro do Pilar ao município de Linhares no estado
do Espírito Santo. O traçado do mineroduto corta 23 municípios. Estão ainda
previstas as estruturas de movimentação e carregamento do minério para navios
de carga em um porto construído exclusivamente para o propósito de exportação
do produto. (GESTA, 2014, p.1)
Este relatório afirma que há diversas
falhas no processo de licenciamento do empreendimento Manabi, “no que tange ao reconhecimento da presença de comunidades
tradicionais e remanescentes de quilombo nas áreas afetadas pelo empreendimento”
(Idem, ibidem), o que não foi apontado pelo Estudo de Impacto Ambiental e
Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA).
Da mesma maneira,
no trajeto previsto para a instalação do mineroduto e porto da Manabi no estado
do Espírito Santo – que atingirá os municípios de Colatina, Baixo Guandu e
Linhares - também se encontram comunidades tradicionais e campesinas. No
município de Linhares, podemos citar como exemplos de comunidades a serem
diretamente atingidas pelo projeto, situadas na margem esquerda do rio Doce: o Assentamento Sezínio Fernandes de Jesus,
conquistado desde 2008 pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
e que conta com mais de 100 famílias; e a Comunidade
Negra de Degredo, situada na foz do rio Doce, ao norte de Povoação e ao sul
de Pontal do Ipiranga.

Mapa 14: Situação dos Portos no Espírito Santo (em operação, em construção e
cogitados), onde se encontra a proposta de localização do “Superporto Manabi”.
Fonte: Frente Parlamentar Ambientalista do Espírito Santo, 2013.
Caso seja
implementado, o projeto Manabi certamente irá provocar danos irreversíveis aos
territórios de uso tradicional, tais como: a indisponibilização de áreas que
ficarão “reservadas” à passagem dos dutos e à construção da infraestrutura
portuária; a perda da diversidade biológica, que afetará a disponibilidade de
alimentos no rio e no mar; o aumento populacional nas regiões, oriundo
inicialmente da mão de obra atraída aos locais; dentre outros. Esses processos
modificarão a organização social e econômica dessas comunidades, conforme já
ocorrido em diversas situações onde o sistema hegemônico se sobrepõe ao uso
tradicional:
Apesar do modo de vida e
do grande conhecimento dos ecossistemas que contribuíram para a conservação dos
seus ecossistemas, as populações de comunidades tradicionais foram
perversamente atingidas. [...] da mesma forma, os sistemas de apropriação comum
dos recursos naturais foram, na maioria dos casos, ignorados e, no processo de
desapropriação, sua qualidade de “posseiros”, sem títulos da terra,
colocaram-nos em desvantagem aos grandes proprietários e empresas que
anteriormente já haviam se apossado de parte de seus territórios ancestrais
(DIEGUES, 1998, p.107-108).
Na esteira do projeto Manabi, empresas de
menor porte vêm sendo atraídas para a região, no intuito de estabelecer
parcerias. Este parece ser o caso da empresa União Engenharia S.A., que atua na fabricação e montagem
industrial, com a produção de tubulações metálicas e estruturas industriais
destinadas a: exploração de óleo, gás e energia; mineração; siderurgia; papel e
celulose; construção civil; e equipamentos submarinos Offshore (UNIÃO, 2012).
Dentre seus clientes, já se encontram empresas de grande porte que atuam no
Espírito Santo, tais como: Petrobrás, Fibria (antiga Aracruz Celulose), Vale,
Suzano, Arcelor Mittal e Samarco.
A União
Engenharia S.A. iniciou sua entrada na região da margem direita da foz do
rio Doce no ano de 2012, a partir da aquisição de terras da empresa Cavalinho
Transportes, que abriu falência. Para a empresa União Engenharia S.A., essa
localização apresenta um grande potencial logístico, uma vez que se encontra
bastante próxima da Unidade de Processamento de Gás Natural – UPGN de
Lagoa Parda; do Estaleiro
Jurong, que se encontra em construção na localidade da Barra do Sahy (ao
sul); e também da localidade proposta para a instalação do “Superporto Manabi” (ao norte, na margem esquerda da foz do rio
Doce).
A entrada da empresa e as tentativas de
expropriação territorial de famílias ribeirinhas da foz do rio Doce deram
início a um novo conflito que se destaca no momento atual, como será discutido
no capítulo a seguir.
5. TERRITÓRIO RIBEIRINHO
DA FOZ DO RIO DOCE: USO TRADICIONAL E CONFLITO
5.1. BERESFORD
MOREIRA, CAVALINHO TRANSPORTES E O CONFLITO COM A OCUPAÇÃO E O USO TRADICIONAL
A
ocupação e uso do território situado na margem direita da foz do rio Doce,
entre esse rio e o rio Preto (seu último afluente), contíguo à Vila de
Regência, alimentam a memória de diversas pessoas nascidas no local e também de
outras que para ali foram viver a algum tempo. Segundo essas informações, essa terra
era utilizada pelas pessoas de Regência com cabanas de pesca (na beira do rio),
roças, cultivos de cacau sob a mata ciliar do rio Doce e caminhos. Parte dessa
terra era alagadiça e, com o tempo, foi recebendo sedimentos do rio Doce, que a
transformou em “terra firme”:
O terreno que nós estamos lutando
era dos caboclos de Regência, era da gente mesmo. A Princesa Isabel doou essa
terra para o Caboclo Bernardo. Isso tudo era rio. O rio foi secando e jogando
terra. Os fazendeiros de cacau foram invadindo aqui também. O pai de Zé de
Sabino plantou uma castanheira que está com 40 anos. (Dona Ilda)
Dona Ilda Lourenço Peçanha nasceu em
Regência no ano de 1943 e atualmente está com 61 anos. Segundo ela, seu pai,
chamado Primo Lourenço, era “Índio Negro Botocudo” da área de Comboios (família
Ribeiro) e da Vila do Riacho (família Lourenço), nascido em 1904 e falecido em
2002, com 98 anos. Sua mãe, chamada Aldina Ribeiro Lourenço, era “Cabocla Índia
Clara”, nascida em 1923 e falecida em 1963, com 40 anos.
Dona Ilda casou-se com Acélio Penha
(nascido em 1906 e falecido em 1966, com 60 anos), que era dono da Fazenda Três Irmãos, herdada de seu pai,
Pedro Penha (nascido por volta de 1870). Além da Fazenda Três irmãos (margem
direita do rio Doce), Pedro Penha também era dono da Fazenda Santa Júlia, na localidade de Povoação (margem esquerda da
foz do rio Doce). Com a morte de Acélio Penha em 1966, sua primeira família
vendeu as terras da Fazenda Três irmãos e doou uma parte à Dona Ilda, que
atualmente se encontra com plantio de cacau.
Pedro Penha era parente de Beresford Moreira, que também era dono
de terras nas duas margens da foz do rio Doce. Na margem direita, constituiu a Fazenda Entre Rios, cuja área se
estendia do rio Doce ao rio Preto e se situava à jusante (descendo o rio Doce)
da Fazenda Três Irmãos, de Pedro Penha. Segundo Dona Ilda, Pedro Penha e
Beresford Moreira eram caboclos e também haviam herdado essas terras de seus
pais.
Dona Ilda nos conta que Beresford Moreira
se tornou um fazendeiro de cacau e quando foi fazer o requerimento de suas
terras ao Estado em 1953, quis “esticar sua cerca até a Vila de Regência [...]
e foi invadindo pra cá” (Dona Ilda). A Fazenda
Entre Rios ficou, então, com duas sedes: Gambá de Cima e Gambá de
Baixo. Quando tinha por volta de 18 anos (aproximadamente em 1961), Dona
Ilda conheceu um dos filhos de Beresford Moreira, que continuava expulsando o
povo dessa terra:
Quando Beresford Moreira morreu,
seus filhos continuaram a repressão, expulsando o povo. [...] Nessa terra, a
gente tinha muito plantio, mas os capangas do Beresford Moreira expulsavam o
povo. (Dona Ilda)
Élcio José Souza de Oliveira, 50, o “Zé de
Sabino”, pescador nascido em Regência, também relembra que sua família vivia na
vila e utilizava essas terras para plantar roças de subsistência. Seu pai
plantava banana, milho, feijão, cacau, arroz, mas com o tempo, os “capangas de
Beresford arrancavam tudo da terra”.
Em pesquisas nos arquivos do Instituto de
Desenvolvimento Agroflorestal do Espírito Santo (IDAF), encontramos o documento
Fotocadastro de Imóveis Rurais
produzido nos anos de 1970-71, onde constam registros aerofotogramétricos das
propriedades, acompanhados de mapas com as divisões por posse e/ou propriedade,
e cada qual com uma ficha que discrimina: o nome do ocupante; seus
confrontantes; o processo de aquisição e a existência ou não da documentação da
terra; os tipos de uso efetivados; dentre outras informações valiosas. Neste
cadastro, pudemos encontrar o registro de Beresford
Moreira e sua posse de 461,01 hectares, tendo como limites: o rio Doce (a
leste); a Vila de Regência (ao sul); e os confrontantes Rumão Guilherme de
Souza (ao norte), e Izidoro F. Costa, Ernestina Maria da Conceição, Luiz
Pereira de Alvarenga, Antonio Alvarenga (a oeste):


Figuras 24 e 25: Ficha referente à
posse de Beresford Martins Moreira na margem direita da foz do rio Doce, com
461,01 hectares ocupados pelo cultivo de cacau e sem referências de
documentação. Fonte: IDAF (1971).


Mapa 15: Fotocadastro da
região da foz do rio Doce, onde se pode observar a identificação das posses
e/ou propriedades, com destaque à posse de Beresford
Moreira, de número 151, que se
estendia também a uma ilha fluvial. Fonte: IDAF (1971).
Nesse
documento, também foram encontrados outros registros de pessoas antigas da
região, relembradas pelos moradores atuais, tais como:
·
Júlia
Penha (ficha n. 141): “posseiro de uma área aproximada de
10,0 ha., possui a propriedade há 20 anos...” na localidade “Beira Rio”, e onde
foram registrados os usos com mata (6,0 ha.), cacau sob mata (4,0 ha.) e 1 casa
de estuque;
·
Geralda
Penha (ficha n. 140): “posseiro de uma área de 12,0 ha.,
possui a propriedade há 22 anos” na localidade “Beira Rio”, e onde foram
registrados os usos com mata (6,0 ha.), cacau sob mata (6,0 ha.) e 1 casa de
estuque;
Segundo
informações locais, Júlia e Geralda foram filhas de Pedro Penha e herdaram
parte das terras de seu pai.
·
Edmo
Pereira de Alvarenga (ficha n.155): posseiro de uma área de
150,0 ha. na localidade “Rio Preto”, que se encontrava em processo de
requerimento junto ao governo estadual desde 1952, onde foram registrados os
usos de cultivo anual (25,0 ha.), mata (30,0 ha.), pasto (25,0 ha.), capoeira
(50,0 ha.) e 2 casas de estuque;
·
Antonio
Pereira de Alvarenga (ficha n.154): proprietário de uma área de
77,10 ha. na localidade “Rio Preto”, requerida do Estado do Espírito Santo em
1963 e 1969, onde foram registrados os usos de cultivo anual (10,0 ha.), mata
(15,0 ha.), pasto (10,0 ha.), capoeira (42,10 ha.) e 1 casa de estuque;
·
Luiz
Pereira Alvarenga (ficha n.152): proprietário de uma área de
130 ha. na localidade “Rio Preto”, requerida do Estado do Espírito Santo em
1964 e onde foram registrados os usos com cacau sob mata (10,0 ha.), pasto (50
ha.), capoeira (70,0 ha.) e 1 casa de estuque;
Atualmente,
a família Pereira Alvarenga
encontra-se nas terras à margem direita do Rio Preto, caracterizadas por solos
arenosos, onde não se planta o cacau. No entanto, utiliza as terras da margem
esquerda do mesmo rio para cultivar o cacau e outras frutíferas dentro da mata
ciliar, no tradicional manejo da “Cabruca”, que é possibilitado pela presença
do solo argiloso oriundo das deposições de sedimentos do rio Doce.
·
Norberto
Mateus de Souza (ficha n.4): posseiro de uma área de 5,0
ha. denominada “Ilha Santa Luzia” e correspondente a uma ilha fluvial do rio
Doce, que estava em processo de requerimento junto ao governo estadual desde
1953, onde foi registrado o uso com cacau (4,0 ha.) e capoeira (1,0 ha.);
·
Arnaldo
Paulino do Nascimento (ficha n.5): proprietário de uma área
de 12,65 ha. denominada “Ilha do Sabiá” e correspondente a uma ilha fluvial do
rio Doce, adquirida do Estado do Espírito Santo em 1963, onde foi registrado o
uso com cacau.
Consta
que ambos residiam em Regência na época do documento, o que atesta o uso que a
população local fazia dessas terras, muitas vezes sem o estabelecimento de
moradias fixas. Segundo Dona Ilda, Seu Norberto era “Caboclo” e sua esposa,
Dona Luzia, é “Índia” e ainda vive em Regência, com quase 100 anos. Após o falecimento
de Seu Norberto, os direitos de posse da “Ilha de Santa Luzia” foram vendidos,
em 1984, à Dona Augusta Porto de Lima,
atual ocupante da terra.
Em
1981, a empresa Cavalinho Transportes
Ltda. teria adquirido parte das terras de Beresford Moreira (UNIÃO, 2013 -
Anexos). Seu Nilton José dos Santos, 50, era morador da região na localidade de
Sete Lagoas, onde nasceram seus três filhos. Ele conta que a empresa era
gerenciada por um homem chamado San Poltronieri, que arrancou o cacau e plantou
pasto. Seu Nilton plantava nessas terras e também pescava no rio Doce, mas
evitava vir depois que a empresa e seu gerente se instalaram no local.
Dona
Ilda diz que ela e sua irmã, Dona Alda Ribeiro Lourenço, 66, trabalharam para
San Poltronieri durante 7 anos, cuidando de plantios de cacau, feijão, milho e
capim. Havia um caminho que ligava a roça de Dona Ilda à vila de Regência e
passava por dentro dos cultivos de cacau. Esse caminho era utilizado por todos,
“mas um dia o pistoleiro do San Poltronieri proibiu de usar o caminho” (Dona
Ilda). Nesse sentido, podemos ver que o processo de expropriação do território
de uso tradicional teve continuidade não só com a proibição do uso agrícola,
mas também da circulação.
Segundo
ela, a Cavalinho Transportes Ltda. tinha muitos funcionários e caminhões que
utilizava para transportar eucalipto para a empresa Aracruz Celulose (atual
Fibria). Em 1990, a Cavalinho entrou em falência:
Em 1990, a
Cavalinho Transportes, por motivos econômicos, encerrou suas atividades. Em
1991, 43 trabalhadores [...] da referida empresa ingressaram na Justiça do
Trabalho em Linhares, exigindo seus direitos, originando o processo n.
0073.600-78-1991.5.17.0161 (00736.191.161.17.00.0). A Justiça do Trabalho,
então, penhorou a propriedade acima descrita, localizada em Regência, tendo
como vizinhos os senhores José Afonso Favarato, João Mão Branca, José Carlos
Morelli/ Lenildo Bizon dos Santos/ Luiz Pereira de Alvarenga/ Antônio Pereira
de Alvarenga, o Rio Doce e o Rio Preto, a fim de garantir o pagamento devido
aos trabalhadores. (UNIÃO, 2013)
As
terras ocupadas pela Cavalinho
Transportes Ltda. somavam 200 ha.
(40 alqueires) e ainda configuravam posse
quando foram levadas a leilão, no ano de 2009 (ALMEIDA, 2009 - Anexos). Porém,
depois de duas tentativas (em junho e novembro), não houve interessados na
aquisição, muito embora o Leiloeiro Oficial e Rural tivesse tentado, de todas
as maneiras, construir a imagem de uma “boa oportunidade”, conforme constam
algumas passagens da “descrição do bem”:
A propriedade
em si não possui muitas benfeitorias nem tampouco grandes plantações ou
pastarias. Há cacau já plantado em pequena quantidade, não podendo precisar a
quantidade exata. Há uma casa de vários cômodos e um pequeno curral. Nela
existem 03 (três) poços de petróleo perfurados sendo que um deles este em
franca produção [...]. Entendo sim, possuir grande potencial a ser explorado em
novos plantios (diversos tipos de madeira, entre elas: seringueira, teca
...)[...]. Outra chamada importante é que a mesma se presta a se tornar reserva
legal de outras propriedades [...]. O grande lance que enxergo trata do turismo
rural, esportes radicais e ganchos ligados à ecologia e à biologia marinha
[...]. (ALMEIDA, 2009)
Não
tendo sido adquirida nos leilões, essas terras foram objeto de um Auto de Adjudicação (3 de dezembro de 2010), de uma Carta de Adjudicação (10 de julho de 2012) e de um Mandado de Imissão de Posse a favor dos
ex-funcionários da Cavalinho Transportes Ltda. (25 de outubro de 2012), todos
expedidos pela Justiça do Trabalho de Linhares-ES, no intuito de quitar dívidas
trabalhistas (Anexos). Nesse ínterim, a empresa União Engenharia teria comprado os 200 ha. dos trabalhadores (7 de
março de 2012), que foram representados por procuração dada a Amauri Salvador (UNIÃO,
2013 - Anexos), iniciando um novo período de conflitos.
5.2.
UNIÃO ENGENHARIA E O CONFLITO ATUAL
Seu
Nilton relata que a empresa União Engenharia Ltda. chegou à localidade,
inicialmente, colocando placas com a denominação “Organização Não Governamental
(ONG)”. Posteriormente, Amauri Salvador, procurador dos ex-funcionários da
Cavalinho Transportes Ltda. na transação da venda das terras à União Engenharia
Ltda., teria afirmado que “comprou a terra de um advogado e de uma juíza” e
derrubou cinco moradias que haviam na área: a de Nilton, Zé Maria, Clementino,
Pastor, Giliel e Durval.
Posteriormente,
a empresa colocou 315 cabeças de gado na área (adquiridos por Durval Santana) e
contratou Seu Nilton como vaqueiro. Depois, reduziu o rebanho para 160 cabeças,
mas o gado comia toda a roça daqueles que já utilizavam tradicionalmente essas
terras como fonte de subsistência. Seu Nilton não era mais vaqueiro, mas foi
contratado pela empresa para cercar a área e sugeriu que a cerca fosse feita
tendo o rio Doce como referência, pois lá havia vários moradores antigos que
tinham documentação da terra. Ao fazer o
trabalho de cercamento da área, Seu Nilton começou a perceber que as “divisas”
– limites antigos entre as terras – não estavam sendo respeitadas. Além disso,
a cerca estava restringindo o acesso ao espaço tradicionalmente utilizado para
cultivos e pesca: a “porteira azul” feita pela empresa era fechada com cadeado
e a única maneira de se chegar às terras da antiga Fazenda Entre Rios passou a ser o mato, o rio Preto ou o rio Doce.
A
empresa União Engenharia começou a colocar material na área para a construção
de um galpão e os ribeirinhos e camponeses que utilizavam tradicionalmente
aquele espaço decidiram retomar sua apropriação, ou seja, voltar para a terra.
Solicitaram apoio de movimentos sociais do campo, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA),
e receberam outros de instituições como a Federação
de Órgãos de Assistência Social e Educacional (FASE). No dia 12 de agosto
de 2013, quebraram o cadeado da “porteira azul” e retomaram a apropriação do
território.
A
partir de então, um grupo passou a acampar na área para garantir a retomada do
território, iniciando a construção e reconstrução de moradias. Em virtude
disso, vem sofrendo uma série de represálias e constrangimentos por parte da
empresa, como ameaças de despejo e/ou de terem as casas queimadas, prisões e o
pisoteio do gado sobre as roças. Na Vila de Regência, a União Engenharia montou
seu escritório e iniciou um trabalho de conquista da comunidade, oferecendo
promessas de emprego e melhoria das condições de vida. Aqui e também na
Comunidade de Areal, a empresa promove, até mesmo, festas de aniversários
infantis.
O
que assistimos neste território da margem direita da foz do rio Doce possui
grande verossimilhança com outros episódios da história agrária brasileira,
onde desponta a cultura da apropriação ilegal de terras consideradas
“devolutas” por agentes da especulação e por projetos desenvolvimentistas. Na
realidade, em numerosos casos essas terras constituem territórios tradicionalmente utilizados por povos originários e
comunidades campesinas, pescadoras, quilombolas, extrativistas, ribeirinhas,
dentre tantas na sociedade brasileira, mas que, no entanto, são violados.
Hoje estou
lutando por um pedaço de terra que a União está brigando pra pegar esse pedaço
de terra. Só que essa terra nossa é uma terra devoluta e não pode ser. Se é
nossa, nós têm direito na terra. Somos ribeirinhos, povo tradicional, hoje nós
não podemos entregar essa terra de mão beijada pra eles, tem que ir à luta, que
é direito nosso, é nossa a terra. Nós somos indígenas, né, que anda lutando com
esses grandes latifundiários, grandes empresários. (Gerônimo)
Na
área em estudo, além das terras devolutas continentais, outras são
periodicamente construídas pelo trabalho do rio Doce, que carreia e acumula
sedimentos em algumas áreas que por sua vez se transformam em ilhas onde, aos
poucos, a vegetação passa a se fixar. Ao nascer e despontar sobre as águas,
essas ilhas não possuem “donos”, mas com o tempo e a fixação, passam a ser
apropriadas. Zé de Sabino conta que tem a posse de três ilhas: uma delas
comprada e as outras duas, que viu nascer no rio, apossadas. Nelas cultiva
cacau e banana. Por outro lado, não só as comunidades tradicionais se apossam
dessas construções do rio Doce. Seu Nilton afirma que além das terras da
Cavalinho Transportes Ltda., que eram posse de Beresford Moreira, a empresa
União Engenharia Ltda. também tomou posse de uma grande área de “ilhas” que
foram construídas pelo rio Doce e que, portanto, não possuem documento algum.


Imagem 5: Foto aérea da foz
do rio Doce em 1970, que mostra algumas ilhas formadas em sua margem direita
pelo processo de sedimentação do rio. Com o tempo, essas ilhas passam a fixar
vegetação da mata ciliar e a serem ocupadas pela comunidade local, sobretudo
com cultivos de cacau. A continuidade do processo de sedimentação do rio Doce
preenche os espaços entre elas e o continente, transformando-lhes em “valões”
que recebem água somente nos períodos de cheia do rio e da maré.
5.3.
CONTEXTO DO TERRITÓRIO
Atualmente,
o Território de Uso Tradicional
Ribeirinho da margem direita da foz do rio Doce encontra-se em processo de
resistência frente à expropriação. Do grupo constam: pessoas descendentes dos
povos originários Botocudos; pescadores artesanais oriundos da miscigenação
entre indígenas, afrodescendentes e também europeus; e camponeses tradicionais
que chegaram à região entre 20 e 30 anos atrás. Todos esses sujeitos foram alvo
de diversos processos de expropriação territorial que tiveram início com a
Colonização européia e continuam até o momento atual. Todos esses sujeitos
construíram seu modo de viver fundamentado no diálogo com a natureza farta da
foz do rio Doce, praticando formas comuns de uso e apropriação desse espaço.
Alguns
deles possuem algum tipo de documentação referente à terra que ocupam (Anexos):
·
Irmãos
FONTES: pagam ITR + Planta IDAF
·
PAULO
DOS SANTOS BISPO: paga ITR + Planta IDAF
·
EDVALDO
GOMES LIMA: paga ITR + Planta IDAF
·
AUGUSTA
PORTO LIMA: paga ITR + Escritura de Compra e Venda de Posse
·
ÉLCIO
JOSÉ SOUZA DE OLIVEIRA: Recibo de Compra e Venda
·
CLEMENTINO
PEREIRA DA SILVA: Recibo de Compra e Venda
·
JOÃO
MÃO BRANCA: paga ITR
·
DURVAL
SACRAMENTO: Recibo de Compra e Venda
No
intuito de apresentar a ocupação que ora se efetiva no Território Ribeirinho da margem direita da foz do rio Doce,
trazemos o mapa a seguir (Mapa 16), onde constam as informações:
·
A indicação dos limites do território, que
é dada pelo rio Doce, rio Preto e a porteira de entrada;
·
As Áreas
Limpas, abertas a fim de efetivar a ocupação do território;
·
As áreas com Plantios, como a “lavoura branca” (feijão, milho, abóbora, quiabo,
batata), hortas e pomares;
·
As áreas de Cabruca (manejo do cacau sob as matas ciliares dos rios);
·
A presença de Secador de Cacau e outras Estruturas
Produtivas (curral, chiqueiro de porco, galinheiro);
·
Valões e
outras Marcas Antigas do rio Doce,
que testemunham o processo de sedimentação e construção de terrenos junto à
margem do rio (ilhas que posteriormente se tornam contíguos ao continente);
·
Resíduos
de parede de casa antiga, pertencente a Mané Moraes, indígena
que era gerente da Fazenda Entre Rios, de Beresford Moreira;
·
Casas
e
cabanas atuais (alvenaria, madeira e estuque);
·
Cavalinhos
mecânicos de exploração de petróleo;
·
Porto
da Pracinha, no rio Doce (utilizado pelos pescadores
de Regência junto com os outros 2 portos: o do rio Preto e o do Carloto).
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Figuras 26 e 27:
Dona Alda, 66; Zé de Sabino, 50; e Dona Ilda, 61.
Maresia, Dona Ilda e Edvaldo. Presença da comunidade tradicional no território.
Fotos de Simone Raquel Batista Ferreira, 14 e 15.03.2014.
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Figuras 28 e 29: Dona Ilda e os “cultivos de
macaco”: cacau plantado pelas sementes jogadas por macacos. Embarcações dos
pescadores de Regência no rio Doce. Fotos de Simone Raquel Batista Ferreira, em
15.03.2014.
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Figuras 30 e 31: Sítio da família Alvarenga na margem direita do rio Preto. Fotos de
Simone Raquel Batista Ferreira, 14.03.2014.
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Figuras 32 e 33: Casas de madeira: ocupação tradicional no território. Fotos de André
Azoury Vargas, 14 e 15.03.2014.
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Figuras 34 e 35: Caminho e cerca na Cabruca, e chiqueiro com criação de porcos, que
testemunham a apropriação tradicional do território. Fotos de André Azoury
Vargas, 14 e 15.03.2014.
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Figuras 36 e 37: Vista do rio Doce e das ilhas formadas pelo processo de sedimentação.
Fotos de André Azoury Vargas, 14 e 15.03.2014.
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Figuras 38 e 39: Cacau e Dendê, frutos que testemunham a ocupação tradicional da foz do
rio Doce. Fotos de André Azoury Vargas, 14 e 15.03.2014.
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Figuras 40 e 41: Porteira e cerca construídas pela empresa União Engenharia Ltda. e
cavalinho mecânico de exploração de petróleo da Petrobras nas terras
anteriormente pertencentes à família Alvarenga. Fotos de Simone Raquel Batista
Ferreira, 14.03.2014.
6.
CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES
No intuito de fortalecer o processo de
reapropriação do Território de Uso
Tradicional da margem direita da foz do rio Doce, gostaríamos de sugerir
algumas recomendações.
A fim de se
compreender uma fração da realidade geográfica das comunidades tradicionais da
região da foz do rio Doce, deve-se, em primeiro lugar, não vincular o
pensamento às matrizes lógicas dos grandes projetos, pois os objetivos
desenvolvimentistas subvertem a análise em prol da transformação da natureza em
mercadoria e lucro que vem acompanhada da destruição das comunidades
tradicionais, cujo modo de vida se faz intrinsecamente vinculado às dinâmicas
da natureza.
Nesse sentido,
faz-se necessário reconhecer a legitimidade dessas comunidades aos seus
territórios tradicionalmente ocupados e para isso, o Estado Brasileiro deve
efetivar a aplicação, ao menos, dos seguintes instrumentos jurídicos:
·
Constituição Federal Brasileira (1988), com destaque aos Artigos 215, 216, 225 e
ADCT 68;
·
Convenção n. 169 da Organização Internacional do
Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais (1989, ratificada pelo Brasil em 2002);
·
Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável
dos Povos e Comunidades Tradicionais
(Decreto n. 6.040/2007).
Ao nível interno do Território em estudo,
sugerimos fortalecer o processo organizativo da comunidade através da criação
de instância coletiva representativa e decisória, como uma associação.
No intuito de dialogar de maneira
equilibrada com essa porção territorial construída, em grande parte, pelo
processo de sedimentação do rio Doce, sugerimos que as formas de manejo sigam
os saberes tradicionais que dialogam com essa natureza que apresenta, ao mesmo
tempo, uma grande fertilidade e fragilidade.
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BACIA
HIDROGRÁFICA DO RIO DOCE. http://www.riodoce.cbh.gov.br/
BIBLIOTECA VIRTUAL DE MEIO AMBIENTE DA
BAIXADA FLUMINENSE. http://www.bvjovem.uerj.br/
CENTRO
DE OPERAÇÃO DO SISTEMA DE ALERTA (CEOPS). http://ceops.furb.br/index.php/institucional/historico
ÍNDIOS
NO NORDESTE. http://indiosne.blogspot.com.br/
UNIÃO
ENGENHARIA, FABRICAÇÃO E MONTAGEM. http://www.uniaoengenharia.ind.br/pt-br/home
ANEXOS
[1]
Em 1828, a
população total do Espírito Santo somava 35.000 habitantes, dentre os quais
22.165 “livres” e, dentre estes, 5.601 “mulatos”, 2.682 “negros” e 5.788
“índios civilizados”, os quais correspondiam a ¼ da população livre e a 16,5%
da população total (MOREIRA, 2001).
[2]
Os monocultivos de eucalipto destinados, em grande parte, à produção da
celulose, são denominados pelo IBGE de “florestas plantadas” e isto dissemina uma
falsa imagem a respeito desse uso agrícola altamente impactante, que foi
implantado a partir da derrubada das verdadeiras florestas tropicais.


































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