AGRICULTURA E DESENVOLVIMENTISMO NO ESPÍRITO SANTO
* Publicado originalmente em 17 de outubro de 2011
Paulo César Scarim - Geógrafo,
Professor Doutor do Curso de Geografia da Universidade Federal do
Espírito Santo
Desconstruir
o Desenvolvimento é um desafio, ou uma necessidade vital como argumenta
Orlando Fals Borba na introdução ao livro de Arturo Escobar, La Invención del Tercer Mundo (1996).
Escobar produz uma obra fundamental, pois descortina a construção do
Desenvolvimento, ou seja, daquela ideologia que encontrou conjuntura
propícia no período após a Segunda Guerra Mundial, tendo a doutrina
Truman como o centro e a O.N.U como instrumento principal de propagação
do modelo das sociedades avançadas da época, baseado na
urbanização e industrialização, tecnificação da agricultura, rápido
crescimento da produção e aceitação dos valores modernos. Os principais componentes dessa ideologia eram o capital, a ciência e a tecnologia.
Esta doutrina propagava
a necessidade de reestruturação das sociedades agora localizadas,
cartografadas e hierarquizadas como subdesenvolvidas nas quais saberes
deveriam ser erradicados, instituições desintegradas e modos de vida
transformados, pois vistos como obstáculos ao progresso econômico. O debate em torno da natureza deste desenvolvimento vai dominar o eixo das discussões no agora denominado terceiro mundo nas
décadas de 1950, 1960 e 1970. Mais que sua formulação, o que chama à
atenção é a forma de aceitação e implementação desta doutrina na Ásia,
África e na América Latina, pois a crítica ficou muito em torno do tipo
de desenvolvimento e menos sobre as incertezas acerca desta doutrina.
A realidade, como lembra Escobar (1996), foi colonizada pelo discurso do desenvolvimento,
que se converteu em certeza para o imaginário social, dominando o
espaço discursivo da época. Transformado num novo campo do pensamento e
da experiência, o desenvolvimento constituiu-se também nas
próprias estratégias para o enfrentamento dos obstáculos ao mesmo, ou
seja, em estratégias para interromper historicidades. Parte da
estratégia era discursiva (colonialista), para a qual o terceiro mundo caracterizava-se apenas pela fome, analfabetismo e impotência, necessitando, portanto, da ajuda dos países ocidentais do norte.
Escobar fala do desenvolvimento como
uma experiência, historicamente singular, caracterizada por criar um
domínio do pensamento e da ação, definido por formas de pensamento
através do qual ganha existência (objetos, conceitos e teorias), por um
sistema de poder que regula a prática e por formas de subjetividade
fomentada por este discurso (reconhecimento). Esta formação discursiva
dá origem a todo um aparato eficiente que relaciona formas de
conhecimento com as técnicas de poder.
Se
por um lado, Escobar procura mostrar o estabelecimento, a construção e a
consolidação do desenvolvimento e o recorrente subdesenvolvimento e
como, a partir daí, se estrutura o aparato de conhecimento e poder, por
outro, procurou dar visibilidade às cartografias de resistências, aos
mapas conceituais das experiências terceiro mundistas e às categorias com as quais se viram obrigadas a resistir.
Numa perspectiva desconstrutivista o autor busca expor a imagem do terceiro mundo e identificar as palavras [1] do
discurso do desenvolvimento (e seu caráter arbitrário): mercado,
planejamento, população, meio ambiente, produção, igualdade,
participação, necessidade e pobreza.
O desenvolvimento baseado
na predominância de um único sistema de conhecimento dilatou a
marginalização e a desqualificação de outros sistemas de conhecimento, a
partir dos quais seria possível encontrar racionalidades alternativas
às formas de conhecimentos economicistas e reducionistas.
Várias versões locais do desenvolvimento foram
criadas, a do Espírito Santo foi uma delas. Buscamos neste trabalho
demonstrar, por meio do exame das formas, a partir das quais se instalou
o desenvolvimentismo, os limites existentes para este projeto,
enfocando as ações coletivas dos movimentos sociais, representando a
alteridade, possibilitando, assim, enxergar a insurreição discursiva.
Em um primeiro momento cabe desnudar a economia do desenvolvimento –
seu elemento mais influente – e o papel dos modeladores que, por meio
de um conjunto de técnicas racionais (planejamento, medição, valoração,
conhecimentos profissionais e práticas institucionais), organiza a
produção das formas de conhecimento e dos tipos de poder. Partiremos,
portanto, da forma local do desenvolvimento, seus atores e seus
discursos.
Na
análise econômica recorrente no período desenvolvimentista - focada nos
elementos do movimento do capital - o Espírito Santo aparece como
região periférica ou de desenvolvimento industrial incompleto.
Recuperados os impactos da Segunda Guerra Mundial, uma nova divisão
mundial do trabalho passa a ser delineada na conjuntura geopolítica da
Guerra Fria. A concentração do capital, a formação de grandes
conglomerados econômicos e a ampliação da escala de produção e consumo
são marcas importantes deste período. Existem muitas outras.
Estas transformações das economias dos países desenvolvidos passam a exigir esforços modernizadores das economias subdesenvolvidas, no
sentido de aliar o aparato estatal ao capital internacional e nacional.
A criação da Cepal em 1948, do BNDE em 1952 e da SUDENE em 1959 foram
elementos da institucionalização do desenvolvimento na América Latina e no Brasil.
No
Brasil estas transformações provocaram a internalização das dinâmicas
internacionais e a internacionalização do capital, o que provocou
reassentamentos políticos entre as forças dominantes tradicionais e os
propulsores da industrialização-urbanização. A centralização política,
as mudanças nas leis e os planos de desenvolvimento são aspectos
cruciais nesta reorganização político- institucional.
A
concepção hierárquica e classificatória da visão de mundo centrada no
modelo ocidental-moderno produziu a hierarquização regional, tendo como
pano de fundo dois brasis, o moderno e o arcaico. A internalização da visão cepalina e o Plano de Metas (1950-1955)
são saídas apresentadas ao suposto atraso das regiões periféricas.
Impõem, para tanto, a aplicação de investimentos em infraestrutura de
energia e transporte, a integração dependente entre centro e periferia e
a substituição das importações. A inserção das regiões periféricas se
dará, dentro desta divisão espacial do trabalho e da lógica do capital,
como área complementar e de possibilidades limitadas. O Espírito Santo,
mesmo fazendo parte da região Sudeste, região moderna-industrial,
portanto, não apresentando os níveis de industrialização característicos
das regiões centrais foi localizado na periferia desta região, o
“Nordeste do Sudeste”, como normalmente passa a ser caracterizado a
partir deste contexto de criação das grandes regiões brasileiras (a
partir da década de 1940) e do desenvolvimentismo brasileiro (a partir
da década de 1950).
Esta percepção do atraso produz
também uma leitura interna ao solo capixaba de seu presente e de seu
passado, como também das possibilidades futuras. Quanto ao passado, o
atraso transparece como isolamento colonial, ocupação predominantemente
litorânea e reconhecimento das barreiras naturais e
institucionais à dominação do solo. O modelo agroexportador baseado em
ciclos de monoculturas passa a ser visto como forma-conteúdo do atraso.
A palavra-chave deste discurso foi
crise do café. O comércio do café, principal produto exportador, era
controlado por grandes mercadores sediados, principalmente, no Rio de
Janeiro. Com o aumento da produção e a queda do preço, na década de
1950, as condições para a realização do capital estavam se estreitando.
As unidades agrícolas capixabas, principalmente as produtoras de café,
eram em sua maioria familiares, com pouco trabalho assalariado e pouco
consumo, porque autosuficientes, e foram identificadas como a causa do
atraso.
A
busca, neste trabalho, da compreensão das territorialidades na formação
do espaço agrário capixaba revelou um complexo de conflitos demarcados
temporalmente por um acúmulo desigual, no território, das experiências
de resistências às tentativas de desterritorialização.
Este
processo de acúmulo, por sua vez, foi se configurando por rupturas nas
formas e dinâmicas territoriais definindo padrões diferenciados de
conflitividade que nos permitiram periodizar este processo em quatro
lógicas diferenciadas: a colonial, a moderna colonial, a
desenvolvimentista moderna colonial e a global desenvolvimentista
moderna colonial. Para
se implantar no estado do Espírito Santo, a ideologia
desenvolvimentista necessitou produzir uma versão sobre a história, uma
concepção sobre o real e uma visão sobre o futuro.
Na
versão sobre a história, construiu a tese sobre o vazio demográfico,
sob a lógica de que a colonização-modernização foi um processo constante
de ocupação de terras de ninguém, provocando intencionalmente a
invisibilidade e a subalternização de ambientes e povos.
Quanto
à concepção sobre o real - que se constitui parte e reforço da tese do
vazio demográfico - a expansão de áreas subalternizadas deram-se pelo
critério da desqualificação das áreas como atrasadas e subdesenvolvidas,
num processo autoritário de desagregação da pequena agricultura
familiar e de liberação de áreas para outros usos considerados mais
modernos e racionais. A visão sobre o futuro busca, a partir da
desqualificação e da deslegitimação do conhecimento popular, apoiada no
domínio da ciência e da técnica, ordenar o futuro. Para tanto, a razão
como única alternativa à saída da crise é apresentada a partir do
domínio da razão, escamoteando a defesa radical dos interesses da
industrialização.
Buscaremos,
portanto, analisar os documentos e estudos da época que
institucionalizaram a ideologia do desenvolvimentismo e os modos como
esta ideologia se propagou atingindo trabalhos acadêmicos da época e
também de décadas posteriores. Buscaremos, na análise, expor as ideias
fortes e palavras chaves desta construção ideológica.
Antes,
porém, é necessário entendermos o contexto na qual estas concepções
foram implementadas e quais foram os sujeitos e intencionalidades que
nortearam a elaboração do ideário do desenvolvimento.
O
fortalecimento de Vitória, com seus portos e ferrovias, como centro
exportador de café e minérios, ainda no final da década de 1950,
acelerando o comércio urbano, vai provocar também transformações nas
políticas e nos interesses públicos e privados no estado a partir dos
governos de Jones dos Santos Neves (1951- 54) e seus interesses
industrializantes; de Francisco Lacerda de Aguiar (1955- 58) e os
interesses mercantis exportadores e de Carlos Lindenberg, a partir de
1959, com os interesses agromercantis. A criação das Federações, do
Comércio em 1954 e da Indústria em 1958, reforça esta conjuntura.
É
neste contexto que a Federação das Indústrias do Espírito Santo –
FINDES – começa sua atuação, procurando influenciar nas políticas
públicas no estado. E, também, o debate sobre o desenvolvimento do
estado ganha notoriedade pública.
As
primeiras iniciativas da FINDES já demonstram as perspectivas de sua
atuação no momento em que cria um conselho técnico e realiza um
levantamento geoeconômico do estado. Do conselho técnico faziam parte,
entre outros, Américo Buaiz, João Batista Motta e Albuquerque, Eliezer
Batista, Arthur Carlos Gerhardt Santos, Alberto Stange Jr. e Aloysio
Simões. Segundo Helder Gomes (1998), a criação do Conselho Técnico da
Federação das Indústrias vai transformar a FINDES em órgão auxiliar dos
poderes públicos, no que tange aos problemas industriais.
Contribuíram
para esta efetivação a realização do “Seminário Pró Desenvolvimento
Econômico do Espírito Santo”, em 1960, com o apoio da Confederação
Nacional da Indústria (CNI) e com a sustentação política do governo
estadual e, também, a realização de um estudo, através de convênio entre
o Estado e o Serviço Social Rural do qual derivam o documento
Desenvolvimento Municipal e Níveis de Vida e um “Plano de Ação”, visando
o desenvolvimento de projetos de infra-estrutura, de siderurgia, de
diversificação agrícola, de casas populares e de qualificação da força
de trabalho industrial.
A
criação da SUDENE, em 1959, influencia significativamente tais
iniciativas, pois o Espírito Santo, ao ser excluído destes projetos,
passa a reivindicar políticas de atração de investimentos e de isenção
fiscal, levando o governo local a criar um Grupo de Trabalho – GT,
formado pelos representantes das indústrias e das finanças locais,
prefeituras e governos estadual e federal. A este GT coube a incumbência
de elaborar estudos visando planos de desenvolvimento para o estado.
Diante da “crise” financeira que o estado atravessava com a economia “presa” ao café, buscou-se influenciar os líderes locais para libertar o estado desta “monocultura”
a partir do fomento à industrialização. Através de subgrupos e de
seminários regionais, medidas foram elaboradas para incentivar a
industrialização, amparar a agricultura e institucionalizar o
planejamento.
É
possível perceber as mudanças nos discursos oficiais nos anos de 1960 e
1961, fortalecendo a visão da promoção do desenvolvimento, visíveis nas
articulações para a mudança da sede da Companhia Vale do Rio Doce –
CVRD – para Vitória (com Eliezer Batista assumindo sua presidência) e
com a construção do Porto de Tubarão em Vitória. Assim, os discursos
oficiais passam, cada vez mais, a ter uma perspectiva industrializante e
de crítica ao isolamento do estado.
No
documento “A Economia Espírito Santense em Face do Problema do Café”,
apresentado em palestra pelo Governador Carlos Lindemberg, em 1961, são
citadas reportagens na imprensa do Rio de Janeiro, através da qual o
governador tomara conhecimento da possibilidade de proibição da
exportação de café de tipos inferiores. Neste documento o governador
expressa, então, suas preocupações, pois 80% do café produzido no estado
eram de tipos inferiores. Mas ressalta que, apesar disso, esta produção
sempre encontrara mercado, exatamente pelo preço. Lembra também que o
Espírito Santo não seria o estado que mais ampliara a produção nos
últimos 12 anos e que, apesar disso, contribuiria com a retenção de
valor igual aos demais estados produtores.
Ainda neste documento, Lindemberg argumentou que o setor primário, naquela época, era responsável por 65% da renda territorial, das quais 60% deviam-se ao café que, somados à renda da mandioca, do milho, do feijão e do cacau, totalizavam 90% deste valor da renda e ocupavam 89 % da área. O café, segundo o governador, retinha 70 % da mão-de-obra do meio rural e era responsável por 57,3% do total da exportação estadual e em torno de 90,6% da arrecadação. Assim, apesar de sua baixa qualidade, encontrava fácil negociação e não havia estoques retidos. Lembra, ainda, que o estado produzia somente 8,4% da produção do país, mas que, pela proposta do governo federal 318.160 sacas de café ficariam retidas nas safras dos anos de 1961 e de 1962.
Ainda neste documento, Lindemberg argumentou que o setor primário, naquela época, era responsável por 65% da renda territorial, das quais 60% deviam-se ao café que, somados à renda da mandioca, do milho, do feijão e do cacau, totalizavam 90% deste valor da renda e ocupavam 89 % da área. O café, segundo o governador, retinha 70 % da mão-de-obra do meio rural e era responsável por 57,3% do total da exportação estadual e em torno de 90,6% da arrecadação. Assim, apesar de sua baixa qualidade, encontrava fácil negociação e não havia estoques retidos. Lembra, ainda, que o estado produzia somente 8,4% da produção do país, mas que, pela proposta do governo federal 318.160 sacas de café ficariam retidas nas safras dos anos de 1961 e de 1962.
Em
1961, como um dos resultados destes esforços, foi criado o Conselho de
Desenvolvimento Econômico – CODEC, que funcionaria como orientador do
governo. Mas as medidas sugeridas pelo conselho, na época, não eram
aprovadas pela Assembleia Legislativa, constituída na sua maioria por
representantes do setor agromercantil que aprova apenas tímidas medidas
de isenção fiscal.
Em 1962, o Grupo Executivo de Recuperação Econômica da Cafeicultura – GERCA [2] – elaborou um plano com o objetivo de reduzir a produção cafeeira. Os resultados não foram tão expressivos como o esperado.
Francisco
Lacerda de Aguiar volta ao governo do estado em 1963 e, com ele, a
agricultura volta a ser prioridade nos discursos governistas. Algumas
medidas são conduzidas neste sentido através do “Plano de
Industrialização Rural”, do “Plano Educacional Emergencial”, do estímulo
ao processamento de produtos agrícolas tradicionais e ao associativismo
de pequenos empreendimentos rurais. Além disso, fortalece a “Associação
de Crédito e Assistência Técnica Rural do Espírito Santo” – ACARES [3] –
e a assistência rural, que acabaria assumindo o poder político antes
conferido aos representantes da FINDES. A criação da Secretaria de
Planejamento reduz o poder de intervenção da FINDES.
Em
1962, o “Serviço Social Rural”, com apoio do Governo do Estado elabora o
estudo “Desenvolvimento Municipal e Níveis de Vida do Estado do
Espírito Santo”. Este estudo, além
de dar bastante atenção ao agrícola e ao agrário, faz uma síntese
histórica do ES, na qual, sempre fazendo comparação com o Rio de Janeiro
e o estado da Guanabara, reconhecem que “até o século XIX, as
encostas pertenciam aos índios”. (p.30) E é somente neste momento que
eles aparecem, pois desaparecem ao longo do texto, como também,
aparentemente, desaparecem do próprio território, pois “sua penetração
se deve à imigração” (p.30) e da construção do futuro, pois essa
imigração foi o “primeiro e principal motivo de seu desenvolvimento” (p.
30).
A
tese do vazio vai se reforçando ao longo dos textos, pois passam a dar
exclusividade explicativa somente aos eventos que vêm de fora. Assim,
segundo o documento, em meados do século XIX dois grandes fluxos
populacionais se encontram: um do litoral em direção ao interior e outro
de fluminenses e mineiros vindos do norte fluminense e zona da mata
mineira. Esses dois movimentos de penetração e desbravamento geraram,
por sua vez, dois tipos diferentes de estrutura social: a
imigração estrangeira originou um povoamento baseado em pequenas
propriedades, nas quais plantava, ao lado do café, cereais, arroz e
milho; enquanto a imigração a partir dos solos fluminenses e mineiros
teria provocado um povoamento que se organizou em fazendas. Assim, os
movimentos de devastação das matas e do plantio de cafezais são
considerados como de “povoamento” do território. Mas não todo o
território, pois a região ao norte do Rio Doce de ocupação recente é representada como um grande vazio demográfico, sendo considerada, portanto, zona pioneira.
Em 1964, a FINDES propõe a criação da “Comissão
de Desenvolvimento do Meio Leste” – COMLESTE – que serviria para
atração de investimentos. Propõe também a extensão da Superintendência
para o Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE – para a área ao norte do
Rio Doce, ambas propostas negadas pelo governo federal.
A
partir do Golpe Militar de 1964, institui-se a centralização do poder e
das decisões, o crescimento econômico com a política macroeconômica
expansionista, e a promoção de investimentos privados através de
incentivos fiscais e de linhas de financiamento diretos com taxas de
juros subsidiadas.
Em
1965, devido a várias pressões locais e federais, o governador
Francisco Lacerda de Aguiar renuncia e em seu lugar assume o
vice-governador Rubens Rangel, articulado aos interesses das bases
industrializantes. Neste governo interino, ganha força a Secretaria de
Planejamento e o CODEC. Este último passa a ser presidido por Arthur
Carlos Gerhardt Santos que, na época, era do quadro técnico da FINDES,
após passar por seis meses de estudos nos EUA.
A
Reforma Tributária promovida pelo governo federal que se efetivou nos
anos de 1966 e 1967, fortalece a centralização do poder, premiando a
capacidade de articulação de interesses regionais de cada unidade
federativa junto ao poder central e, com a criação de instituições e
instrumentos locais de fomento, promove a corrida por recursos federais.
Christiano
Dias Lopes Filho, que governou de 1967 a 1970 – primeiro governador
indicado pelo regime militar –, monta um quadro “técnico” a partir do
Grupo de Trabalho constituído no governo anterior por Arthur Carlos
Gerhardt Santos, Lélio Rodrigues, Manuel Martins, mais assessores de
fora do estado. Ao mesmo tempo vive-se o momento de um governo federal
com centralização em Brasília e do recrudescimento do autoritarismo e da
violência.
A
influência da FINDES aumenta com Christiano Dias Lopes Filho, o que é
visível no seu plano de governo que foi baseado no “Diagnóstico para o
Planejamento Econômico do Espírito Santo”, documento elaborado pela
FINDES em 1966. É significativo dizer que este pode ser entendido como
um “governo da FINDES”. No entanto, o fato é que Christiano Dias Lopes
Filho foi o primeiro representante que não pertencia ao setor
agrofundiário do Espírito Santo. Além disso, a Federação das Indústrias
teve participação ativa neste governo e em vários conselhos estratégicos
tais como a SUPPIN - Superintendência de Polarização de Projetos
Industriais, a CODEC - Conselho de Desenvolvimento Econômico, entre
outros, e diversos quadros da FINDES ocupavam cargos nos escalões
importantes da máquina administrativa.
Em
1967 é realizada uma reforma administrativa visando maior intervenção
do Estado na economia, com discurso da racionalização e do
desenvolvimento. A máxima veiculada era a de que a industrialização
seria o único meio possível para isso. Assim, as bandeiras da Federação
das Indústrias, como a conquista de incentivos fiscais, a da criação de
um banco de desenvolvimento e de um centro industrial, são assumidas
pelo governo estadual.
O Diagnóstico para o Planejamento Econômico do Estado do Espírito Santo,
de 1966, elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento
Social e Econômico – INED – e financiado pela FINDES, com a participação
de José Artur Rios e João Paulo Magalhães, serviu de base para o plano
de metas e para o discurso de posse de Christiano Dias Lopes Filho. O
“diagnóstico” propõe o planejamento como instrumento através do qual o
Estado criaria mecanismos de indução do desenvolvimento criando um
complexo industrial, já que as atividades tradicionais, café, cacau e
madeira, já não ofereciam perspectivas animadoras, pois foram
considerados esgotados seus potenciais produtivos.
Diante
dos resultados inexpressivos do plano de erradicação dos cafezais,
elaborado pelo GERCA em 1962, o Instituto Brasileiro do Café (IBC) e o
GERCA estabelecem, para o período de 1966/1967, o segundo programa de
erradicação, disponibilizando uma indenização considerada alta para o
momento. Os resultados desta vez superaram as expectativas. Entre 1966 e
1967 foram destruídos, no Brasil, mais de 655 milhões de pés de café e
liberados 674 mil hectares de terra. Desses totais (235 milhões de pés
de café e 193 mil hectares de terra), cerca de 35% correspondiam ao
Espírito Santo, apesar de representarem menos de 10% da produção
cafeeira nacional. Desta forma, apesar da crise dos preços do café não
atingirem drasticamente os produtores, estes foram os mais impactados
pela perspectiva modernizante local, derivando no desemprego de cerca de
240 mil pessoas, cuja maioria migrou para os centros urbanos.
As
indenizações financeiras (por cova liberada) foram pulverizadas entre
os agricultores e, por fim, foram direcionadas para os setores comercial
e financeiro. Mas este programa acabou possibilitando o estímulo e a
liberação de mão de obra para as atividades que, na época, demonstraram
capacidade de crescimento para os anos subsequentes, tais como a
construção civil, a pecuária e o “setor florestal”.
Jones
dos Santos Neves assume a direção da FINDES em 1968, permanecendo até
1977. Elabora um plano com 22 pontos dentre os quais constam a criação e
atuação de sindicatos empresariais; a articulação com a CVRD; maior
articulação, ação e representação nos órgãos governamentais e no
planejamento estadual; criação de um centro industrial; revisão da
balança comercial; atração de investimentos.
Em
1968 com a realização do “Simpósio sobre os Problemas do Espírito
Santo”, com a presença do Presidente Costa e Silva, esta articulação da
FINDES buscou a concessão de incentivos fiscais, efetivada em 1969 com a
transformação da CODES no Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo – o
BANDES, com empréstimos via Banco Nacional de Desenvolvimento – BND.
Arthur Carlos Gerhardt Santos assumiu a presidência do banco até ser
nomeado governador. Em 1969, este sistema se fortalece com a criação do
Fundo de Recuperação Econômica do Espírito Santo – FUNRES, gerido pelo
Grupo Executivo para a Recuperação Econômica do Espírito Santo – GERES
–, com captação de recursos das renúncias de 33,3% do Imposto de Renda
de pessoas físicas e jurídicas residentes na região capixaba em 1966.
Através
destes dados populacionais totais e da sua densidade demográfica, os
autores do estudo verificaram que, na maioria do território, a densidade
era baixa, além de mostrar que o vazio “demográfico do extremo
norte não sofreu modificações e que a zona praticamente despovoada
abrange vasta área do Estado” (SPLAN, 1961, p.). Assim, por conta de seu
despovoamento e falta de sedimentação esta, que abrange vasta área do
estado, não se reveste “com as características de ocupação permanente”
sendo uma região que “ainda procura sua vocação econômica e social, onde
caracterizam “extensos vazios demográficos, grandes áreas de terras
devolutas e onde a economia ainda reveste de caráter extrativo.”
Assim,
diante da pretensa evidência desta análise os autores chegam à
conclusão de que o estado constitui uma “fronteira demográfica”, com
“desequilíbrios” entre as zonas, destacando a zona ao norte do
Rio Doce, uma “área de vazios e, portanto, de expansão potencial.”
Apesar do estudo reconhecer, diante das “evidências”, que a população do
estado era predominantemente rural, diz que o fundamental para uma
“política de desenvolvimento” é fortalecer o efeito polarizador em
alguns centros. O problema encontrado por este estudo são as
características do “subdesenvolvimento” da estrutura demográfica devido à “alta natalidade, típica de uma população rural” e à característica familiar de sua economia devido “ao grande número de dependentes.” (p. 114)
Segundo
Becker (1969), “não faltam mesmo ao estado, as disparidades internas
típicas do subdesenvolvimento e é ao sul do Rio Doce que se concentra o
essencial da vida econômica do Espírito Santo”. (p. 26) Por esta
diversidade interna, a porção sul, a de Cachoeiro do Itapemirim,
destacava-se por ser mais próxima e mais articulada com o Rio de Janeiro
e pela extensão da pecuária de leite e de corte e do arroz nas áreas
úmidas. A área central vinha se destacando através dos
hortifrutigranjeiros, transformando o estado de importador para
exportador.
Assim,
a partir das condições ecologicamente mais favorecidas, com maior
acessibilidade aos mercados e antiguidade do povoamento, o Sul vinha se
integrando mais rapidamente. No Norte, por sua vez, segundo Bertha
Becker, “a erradicação incidiu sobre um espaço onde a vida econômica e
social era ainda extremamente dependente do café, e cuja estruturação
ainda não se cristalizara devidamente de modo a prover os meios para
maior facilidade de integração no mercado interno” levando a um “processo de depressão econômica, desvalorização das terras e no êxodo em massa da população” (Becker,
1969, p.29). Becker acrescenta que a fraca densidade demográfica e sua
característica de transição, marca no tempo, a “região que ainda se
encontrava em elaboração” e
[...] paradoxalmente, a forte vulnerabilidade do Norte à crise econômica do café, decorre justamente de sua condição de fronteira agrícola recente, mas estabelecida com desvantagens tais, que a condenaram desde o início ao insucesso. Decorrem essas desvantagens da debilidade dos estímulos de sua valorização e das resistências e eles oferecidas pelas condições históricas e naturais [...] os estímulos à valorização do Norte são os mesmos que respondem pela mudança dos padrões espaciais do Sudeste Brasileiro na primeira metade do século XX: o café, as necessidades de um ‘core’ em formação, representado pelo mercado interno concentrado no Rio de Janeiro e São Paulo, e a pressão demográfica nas áreas agrícolas tradicionais (Becker, 1969, p. 32).
[...] paradoxalmente, a forte vulnerabilidade do Norte à crise econômica do café, decorre justamente de sua condição de fronteira agrícola recente, mas estabelecida com desvantagens tais, que a condenaram desde o início ao insucesso. Decorrem essas desvantagens da debilidade dos estímulos de sua valorização e das resistências e eles oferecidas pelas condições históricas e naturais [...] os estímulos à valorização do Norte são os mesmos que respondem pela mudança dos padrões espaciais do Sudeste Brasileiro na primeira metade do século XX: o café, as necessidades de um ‘core’ em formação, representado pelo mercado interno concentrado no Rio de Janeiro e São Paulo, e a pressão demográfica nas áreas agrícolas tradicionais (Becker, 1969, p. 32).
Assim,
o Norte estaria fora da valorização das áreas de matas mais acessíveis
aos mercados metropolitanos, dando origem às frentes pioneiras que
ficavam entre 500 e 1000 km de São Paulo e do Rio de Janeiro. São estes
elementos que, segundo Becker (1969), caracterizam a dualidade econômica
entre a agricultura de exportação e aquela para o mercado interno; e
esta dualidade projeta- se no espaço. Assim, no espaço se demonstra o
papel do legado histórico: o vazio humano e econômico do Norte. Lembra
ainda Berta Becker (1969) que até o início do século XX o Norte do Rio
Doce “permaneceu como uma região desabitada, mas que constituía um
inferno” de matas densas, febre e índios bravios e que
A força da FINDES, neste contexto, pode ser atestada pela conquista
de fornecimento
de energia com a criação da Espírito Santo Centrais Elétricas S.A. -
ESCELSA; a criação do Banco do Estado do Espírito Santo – BANESTES; a
criação de mecanismos de incentivos fiscais para projetos industriais e
agropecuários; de benefícios fiscais para a compra de máquinas e
equipamentos; a criação do Centro Industrial de Vitória (CIVIT), em
1969; soma-se também a criação, em 1971, da Superintendência de
Polarização de Projetos Industriais (SUPPIN) e da Coordenação de
Planejamento Industrial (COPLAN), órgãos com participação direta da
Federação das Indústrias. Estes elementos demonstram a força da FINDES
neste contexto. A criação em 1969, do Fundo de Desenvolvimento das
Atividades Portuárias (FUNDAP), marca, também, este surto
industrializante: obras de infraestrutura nas estradas, construção de
hidrelétricas, construção de usinas de pelotização e o apoio às
políticas de “reflorestamento” [4].
[...]
tamanha marginalidade se explica pelas desvantajosas condições naturais
que a região apresentava, frente a um tipo de economia especulativa
baseada na exploração dos recursos naturais, ficando esta área no século
XIX no mais completo isolamento, pois a metrópole fez questão de manter
a barreira natural representada pelas matas densas (BECKER, 1969, p.
34).
Em
1968, a federação das indústrias elabora o documento “O Espírito Santo
como Periferia de Dois Pólos”, no qual, a partir da análise da grave
crise econômica do estado, busca a extensão da SUDENE para a zona ao
norte do Rio Doce, considerada uma zona geoeconômica bem definida, num
estado pobre entre vizinhos ricos que teria sofrido um golpe devastador
com a erradicação do café. Estas ações derivam no “Plano de
Diversificação Econômica e Desenvolvimento Agrícola do Espírito Santo
(1968)”. Ao final do governo de Christiano Dias Lopes Filho várias metas
do plano da FINDES obtiveram êxito.
No
governo de Arthur Carlos Gerhardt Santos (1971-1974), também sob a
força da ditadura militar, a FINDES buscou consolidar suas conquistas
anteriores e abrir novos espaços para a iniciativa privada com a criação
do Fórum de Desenvolvimento Empresarial, entre outras iniciativas; a
mesma exerceu bastante influência na elaboração do I Plano Estadual de
Desenvolvimento, fortalecendo a busca de atração dos chamados “grandes
projetos”.
No governo de Élcio Álvares (1975 – 1978) foi forte a influência da Federação das Indústrias na busca destes objetivos, ocupando com seus quadros vários postos importantes no governo, tais como BANDES, Secretaria de Indústria e Comércio SUPPIN, entre outros.
Neste
contexto a FINDES vislumbra uma maior participação do capital capixaba
nas oportunidades de desestatização das empresas públicas, visível no
documento “Alguns Aspectos Estatizantes da Economia Capixaba”, de 1975,
coincidentemente ano em que o governo estadual cria o “Grupo de Trabalho
sobre a Desestatização”, que contou com a participação efetiva da
FINDES.
Em
1977 assume a direção da FINDES Oswaldo Vieira Marques (até 1983) já
neste contexto de busca de maior participação das empresas locais no
processo de “desenvolvimento”5, a
partir do questionamento da maior participação do capital internacional
e da pouca participação dos ramos tradicionais da economia capixaba.
Esta
postura se traduziu em questionamentos sobre a localização industrial
da Companhia Siderúrgica de Tubarão – CST, Samarco Mineradora e Aracruz
Celulose, por meio do discurso ambientalista e da exigência de uma
política ambiental que fortalecesse os setores tradicionais
(cana-de-açúcar, mineração, agroindústrias, construção civil, petróleo e
turismo) buscado assim, uma maior participação das pequenas e médias
empresas, base de sustentação da Federação das Indústrias, nos
investimentos e incentivos fiscais.
Este
é o momento vivido pelo último governo do período da ditadura, Eurico
Rezende, que governa de 1979 a 1982. Resulta desta postura a criação,
por este governo, da Comissão Estadual da Indústria da Construção –
CEICO, e do Conselho de Desenvolvimento Industrial e Comercial – CEDIC, e
na participação direta de diversos quadros da federação das indústrias.
Berta
Becker (1969), que elaborou um interessante estudo em 1969 sobre a
região Norte do Espírito Santo, em sua introdução identifica a
localização econômica do estado da seguinte forma:
Ocupando posição
marginal em relação à região núcleo do país, tanto do ponto de vista
econômico como geográfico, o Estado do Espírito Santo caracteriza-se
como região periférica. Sua economia, fundamentada numa cafeicultura
tradicional, apresenta-se em crise, vendo-se o Estado na contingência de
rapidamente integrar-se no ‘core’ do país como solução para a mesma
(...) sofrendo maior impacto. O Norte capixaba configura-se como uma
periferia deprimida, cuja integração, tentada através da pecuária,
apresenta dificuldades (Becker, 1969, p.3 da Introdução).
Além disso, a autora faz questão de ressaltar a situação de inferioridade do
estado dentro do Centro-Sul e que esta traduzia sua posição marginal no
Sudeste do Brasil e acrescenta:
Indiscutivelmente, o Espírito Santo é
parte integrante da região sudeste, quer por sua posição geográfica,
quer pelas características de seu quadro natural, quer por uma evolução
econômica comum marcada pela atividade cafeeira. (...) No entanto,
participando do chamado Sudeste Velho, ocupa os confins orientais da
região, distantes e de difícil acesso; fundamenta sua economia numa
cafeicultura arcaica que gerou uma estrutura econômica subdesenvolvida
(Becker, 1969, p. 4).
É
importante observar que a autora realizou sua pesquisa no momento em
que, no estado, o ideário do desenvolvimento estava sendo implementado.
Assim, não é de se surpreender que a autora tenha utilizado como base
das suas pesquisas os documentos elaborados pela FINDES e pela ACARES;
entre eles o Plano Diretor da ACARES, de 1963-64, “O Plano de Desenvolvimento para a Agricultura do Espírito Santo”, de 1966 e o Plano de Diversificação e Desenvolvimento Agrícola,
de 1968. Assim sendo, a autora reproduz concepções e paradoxos que
estavam nos documentos e que serviriam exatamente para a formulação de
teses sobre o real, para as quais a legitimação acadêmica seria
interessante, principalmente por via das teses e dissertações em
universidades do “centro” do país.
Embora
reconheça que o cultivo do café representava apenas 14,6% da área do
estado ou 423.000 hectares, a autora explica que as limitações
intrínsecas do Estado decorrem de “uma estrutura primária da produção
excessivamente dependente da agricultura cafeeira tradicional.” (Becker,
1969, p.6)
No
mesmo caminho dos documentos que utilizou como base, a autora, além de
caracterizar o caráter periférico e atrasado do estado do Espírito
Santo, localiza dentro dele os motivos deste atraso. Inicialmente
ressalta, utilizando-se dos dados de 1960, que a área média no estado
era de 52,8 hectares e que a área média de lavoura era de 10,2 hectares. Estes dados impressionam a autora, mas:
Mais impressionantes ainda são os dados que evidenciam a estreita dependência da organização agrária e da população rural ao Café. Em 1960/61 o café absorvia cerca de 57% da área em lavoura e 80% da mão- de-obra agrícola do Estado, sustentando mais de 70% das famílias rurais. (....) A estruturação do espaço econômico fundamentada no café processou-se, porém, com caráter bastante precário, em virtude da incompatibilidade entre essa lavoura e a pequena propriedade, se laborada com técnicas primitivas e implantada em meio natural e em condições locacionais pouco favoráveis. Essa precariedade é tanto maior quanto comparada a áreas cafeeiras mais prósperas, conferindo à cafeicultura capixaba uma posição marginal no plano nacional (Becker, 1969, p. 8).
Desta forma, analisando a citação da página anterior, a “posição marginal” se
explicaria pela dependência ao café, mas o espaço econômico do café era
precário por causa da “incompatibilidade entre essa lavoura e a pequena
propriedade”. Além disso acrescenta que nesta pequena propriedade “se
labora com técnicas primitivas” e em “condições locacionais pouco
favoráveis”. (Becker, 1969)
Os números vão aparecendo para reforçar o argumento. Assim, utilizando-se de dados de 1961, a autora destaca que os médios e pequenos estabelecimentos representavam 80% das propriedades cafeeiras, 60% da área cultivada com café e 45% da mão-de-obra no trato da lavoura ficando, portanto, caracterizada a “pequena dimensão da empresa cafeeira no Espírito Santo”. Ao caracterizar desta forma fica também explicada a raiz da posição marginal do estado. A autora vai além dos dados estatísticos ao localizar na história a raiz deste atraso:
Essa estrutura é, em grande parte, fruto da colonização estrangeira (p.8). (...) estabelecidos em ‘colônias’, inicialmente lotes de 50 e posteriormente 25 hectares, os colonos criaram uma estrutura agrária homogênea, caracterizada pela pequena propriedade, estrutura essa que acompanhou o deslocamento da frente pioneira para o norte do Estado (...) diverso daquele da maior parte do Sudeste cafeeiro, esse regime de propriedade predominante representa uma primeira desvantagem para a cafeicultura do Estado (...) a desvantagem da escassez de terra seria anulada, caso a população utilizasse técnica racional na produção, o que infelizmente não ocorre (...) implantou-se assim, desde sua origem, o café, com uma contradição básica entre a pequena dimensão da propriedade e as necessidades de uma lavoura de especulação, fundamentada no uso extensivo da terra – espaço e fertilidade – como principal fator de produção” (Becker, 1969, p. 10).
Desta forma, a autora faz desfilar ao longo do texto como desvantagens que levaram ao atraso do estado, quais sejam, o regime da pequena propriedade, as técnicas não racionais de produção, condições locacionais pouco favoráveis (...) Assim como os paradoxos e, apesar de em 1960, segundo a autora, as exportações do café representarem 16,1 % da renda do Estado, lhe foi possível concluir que:
[...] a decadência do café significou a decadência do Estado... o estado declina, não apenas porque perde sua fonte de renda, mas também porque sua estrutura rígida, criada em função de uma cafeicultura marginal e a ela essencialmente adaptada, apresenta estrangulamentos tais que a tornam incapaz de reagir diante da crise, com efeito, a rubiácea não trouxe ao Espírito Santo prosperidade comparável à de outros Estados cafeeiros (Becker, 1969, p.18).
Os
paradoxos se somam. Becker reconhece que “historicamente, o Espírito
Santo é o estado cafeeiro menos favorecido nas decisões da política
econômica na área do IBC” (p.19). Explica a autora que, desde o Convênio
de Taubaté (1906), passando pela criação do IBC - Instituto Brasileiro
do Café (1952) - e pela criação do Grupo Executivo de Recuperação
Econômica da Cafeicultura – GERCA (1961), a posição intervencionista
sempre beneficiou os grandes produtores (São Paulo e Paraná) e que isto
também ficou visível no controle do comércio de cabotagem e nos
Regulamentos de Embarque (1961-62 e 62-63), limitando ao máximo a
exportação do tipo 7 e 7/8 para o exterior. O Espírito Santo ficou,
assim, entre as áreas com menor valor pago pelas indenizações. Observa,
ainda, a obrigatoriedade de destoca e aração nas áreas erradicadas no
estado e que este participou igualmente das cotas de contribuição, ou
confisco cambial, mesmo produzindo um café de menos valor e não tendo
participado das políticas de subsídios às importações de equipamentos
que possibilitaram a ampliação do parque industrial do Sul. A autora, no
entanto, elege como elementos explicativos das raízes da marginalidade,
o baixo poder aquisitivo do mercado local, os solos esgotados, o relevo
acidentado, a rentabilidade baixa, a pouca mecanização, a dificuldade
de acumulação de capital e a incapacidade de acompanhar a
industrialização.
A
autora é participante do entendimento de que a cota de contribuição
funcionava como mecanismo de drenagem de renda. Acrescenta ainda,
citando o “Programa de Diversificação do Espírito Santo” – de 1967
(p.3), que, “até hoje [1966] o estado não foi contemplado com nenhuma
compensação financeira ao nível das transferências de renda.” (BECKER,
169, p. 23)
Todos
estes elementos estruturais e políticos demonstravam para a autora o
caráter periférico do estado, pois “as características de
subdesenvolvimento” eram visíveis na estrutura agrícola,
na renda, na população ativa, no valor da produção agrícola, na
deficiência nos transportes, na economia sem dinamismo e na debilidade
da vida urbana. O
que mais nos chama atenção é que esta leitura da realidade se
disseminou e se solidificou de tal forma que estudos recentes de várias
matrizes teóricas continuam reforçando-a. Segundo Helder Gomes (1998),
[...] o Estado do Espírito Santo deve ser entendido como uma região, integrada de forma extremamente atrasada no desenvolvimento da industrialização tardia no Brasil, o que lhe confere uma condição subordinada na dinâmica de interdependência da economia brasileira.” (Gomes, 1998, p.22)
Além
disso, o autor questiona a forma de intermediação experimentada até
aqui no estado, pois privilegiava-se o “acesso de apenas um grupo
bastante seleto de representações de interesses à arena de decisões.”
(GOMES, 1998, p.23)
O
autor parte do avanço do movimento de internacionalização do capital,
que provoca mutações estruturais da economia brasileira, nas quais o
Espírito Santo seria uma manifestação local, dada a forma de organização
das atividades econômicas na região.
Com
estes elos, o estado estaria ligado (adequado) à divisão internacional
do trabalho, por isso seria necessário o entendimento do movimento do
capital na virada dos anos 1960. Isto explicaria a montagem de um
aparelho central de Estado, o intervencionismo, a inclusão controlada
dos trabalhadores e suas representações e a implantação de uma política
industrial efetiva.
O
crescimento industrial foi assim “embalado pela noção cepalina de que a
saída do atraso das economias periféricas estava no crescimento e na
diversificação da produção industrial” (Gomes, 1998, p. 32). A
“preocupação com as desigualdades regionais” já estaria presente desde o
Plano de Metas.
Estaria
dada a “consolidação da ideologia industrializante” em plena “crise da
monocultura cafeeira capixaba” (p.33), isto é, do modelo resultante do
“atrasado processo de colonização”, que estava “assentado em bases
bastante precárias”, cuja “principal característica” eram as “relações
produtivas de base familiar”. E esta relação produtiva de base familiar
tinha um estranho habitus, diríamos, de possuir “insignificantes
manifestações de trabalho assalariado” além de serem “quase todas
autossuficientes”. Isto era possível porque sua “cultura de subsistência”
tinha padrão de consumo “ainda bastante rudimentar”, o que cerceava a
formação e o desenvolvimento de um mercado interno diversificado.
(Gomes, 1998, p. 34)
Poucas
eram, portanto, as perspectivas para a “promoção de um processo de
desenvolvimento”, pois o “processo intensivo de acumulação interna de
capital” era impedido pela monocultura cafeeira, pois esta possuía baixa
“produtividade”, reduzida “qualidade” e o “excedente” era apropriado
pelo grande capital comercial que, concentrado no do Rio de Janeiro,
controlava uma rede de pequenas lojas e intermediários de café. (Gomes,
1998, p. 34)
O trabalho intitulado A Modernização Violenta: Principais Transformações na Agropecuária Capixaba, de Hildo M. de Souza Filho, de 1990, é centrado no estudo das “especificidades” da
modernização agrícola no estado a partir de alguns elementos
históricos, como a constituição da economia cafeeira “baseada na pequena
propriedade”, a “resistência” às tentativas de industrialização, a
integração ao mercado nacional, a erradicação dos cafezais, a
industrialização e a “modernização” agrícola. Segundo o autor, o resultado deste processo foi a destruição da “base produtiva pretérita”.
Mas
este mesmo autor se espanta com a resistência às crises desta
agricultura de pequena escala: “dentro deste quadro pode-se verificar o
crescimento da agricultura sem que necessariamente ocorresse a
destruição da pequena agricultura familiar”. Além de terem
“sobrevivido”, acrescenta o autor, “o número dessas propriedades
expandiu-se pela ocupação de novas áreas em todo o Estado” e este
crescimento “manteve inalterada a estrutura básica de distribuição de
terra, havendo, inclusive, desconcentração” ao longo da primeira metade
do século XX (Souza Filho, 1990, p. 57).
Outro estudo, Cafeicultura e Grande Indústria, de Haroldo Corrêa Rocha e Ângela Maria Morandi, de 1991, parte também da problemática da cafeicultura, principalmente das condições de sua expansão e sua inibição à diversificação da economia. Este fato é explicado também por causa da economia de “subsistência” e da “baixa produtividade”, criando um “círculo vicioso”. Mas, observa o autor, a partir da crise cafeeira, “foi dada a partida num processo de transformações econômicas que viria alterar profundamente a estrutura produtiva da economia capixaba” (p. 23).
Outro estudo, Cafeicultura e Grande Indústria, de Haroldo Corrêa Rocha e Ângela Maria Morandi, de 1991, parte também da problemática da cafeicultura, principalmente das condições de sua expansão e sua inibição à diversificação da economia. Este fato é explicado também por causa da economia de “subsistência” e da “baixa produtividade”, criando um “círculo vicioso”. Mas, observa o autor, a partir da crise cafeeira, “foi dada a partida num processo de transformações econômicas que viria alterar profundamente a estrutura produtiva da economia capixaba” (p. 23).
Este processo gerou uma “crise social”. Para os autores “esse processo de transformações do meio rural no Espírito Santo
encontra-se ainda em curso e, na medida em que a fronteira agrícola
estadual já está praticamente esgotada, pode-se prever que deverá
continuar o processo de desruralização da população”, mas conseguem
encontrar o “efeito benéfico” deste processo, isto é, o “estreitamento
das relações do meio rural com o meio urbano e o conseqüente aumento da
complexidade das relações econômicas locais”. (Rocha & Morandi,
1991, p. 136)
Por
nossa análise, se existir compatibilidade das técnicas, um sistema
técnico pode absorver estruturas pertencentes a um sistema precedente. A
questão da eficácia do sistema técnico pode ser entendida como
articulação entre os diversos sistemas técnicos de diferentes idades e o
que tem uma consequência sobre as formas de vida possíveis na área em
questão. Se entendidas como os resíduos do passado, estas formas de vida
seriam um obstáculo à difusão do novo ou permitiriam ações simultâneas.
Entretanto a territorialização de um sistema técnico pode significar a
desterritorialização de outro. Da desterritorialização do campesinato
produzem-se o trabalho assalariado e o capitalista. O avanço desses
processos encontra no Estado o agente modernizador, pois busca a
legitimação por meio de projetos técnicos, numa perspectiva de bem comum
inquestionável. Os drásticos resultados dos inúmeros programas
tecnocráticos para a realidade camponesa capixaba colocam dúvidas neste
otimismo, fazendo necessária uma reflexão sobre seu papel.
Notas de Rodapé
[1] Para
Escobar são palavras tóxicas. O autor cita o dicionário sobre o
desenvolvimento do qual participaram Ivan Illich, Bárbara Duben, Ashis
Nandy, Vandana Shiva, Majid Rahnema, Gustavo Esteva, Arturo Escobar,
Wolfgang Sachs, entre outros. SACHS, Wolfgang. The Develoment Dictionary. Londres, Zed Books, 1992.
[2] O Grupo Executivo de Recuperação Econômica da Cefeicultura – Gerca, foi criado pelo governo federal em 1961.
[3] A
Associação de Crédito e Assistência Rural do Espírito Santo, ACARES,
foi criada em 1956 e viria a se desdobrar na EMATER e na INCAPER.
[4] Coloco
este termo “reflorestamento” em suspenso devido à sua constante mudança
semântica e sua atual polêmica político-acadêmica em torno da
“monocultura de árvores”.
[5] No mesmo sentido do termo “reflorestamento”, por enquanto manteremos o “desenvolvimento” como um termo em debate.
Referências
ASPLAN. Estudos para o Desenvolvimento Econômico do Estado do Espírito Santo. Vol.2 Plano de diversificação e desenvolvimento agrícola., Governo Christiano Dias Lopes Filho, 1968.
BECKER, Berta K. O Norte do Espírito Santo: região periférica em transformação.Rio de Janeiro: UFRJ, Tese de Livre Docência – Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1969.
ECOTEC. Estudos para o Desenvolvimento Econômico do Estado do Espírito Santo. Vol. III Potencial Florestal e Silvicultura. Governo Christiano Dias Lopes Filho, ES, 1967.
ESCOBAR, Arturo. La Invencion del Tercer Mundo. Bogotá: Ed. Norma, 1996.
GOMES, Helder. Potencial e Limites às Políticas Regionais de Desenvolvimento no Estado do Espírito Santo: o
apego às formas tradicionais de intermediação de interesses. Vitória:
UFES, Dissertação de Mestrado – Universidade Federal do Espírito Santo,
1998.
MORANDI, Ângela Maria; ROCHA, Haroldo Corrêa. Antecedentes e Evolução recente da Economia Capixaba. Vitória: Departamento de Economia, UFES, 1986.
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